segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Davi e Golias ou Meta-análise 1 x Big Pharma 0: Ascensão e Queda do Tratamento Farmacológico da Depressão

Uma matéria na edição deste mês da revista Piauí (Revista Piauí, número 59: Marcia Angell, A epidemia de doença mental) que a minha irmã me recomendou chamou minha atenção. A matéria trata da aparente epidemia de doenças mentais que acomete muitos países desenvolvidos (o foco era os EUA, mas o quadro não é significativamente diferente em outros países). A autora da matéria comentava de forma mais específica três livros publicados recentemente sobre o assunto, que levantam questões bastante incômodas e controversas sobre as teorias mais aceitas sobre os distúrbios mentais como a depressão, que na visão até pouco tempo mais universalmente aceita resultaria de um desequilíbrio nos sistemas de neurotransmissão cerebrais. Um dos livros comentados na matéria da Piauí se concentra justamente no tratamento farmacológico da depressão. Em “The emperor’s new drugs”, Irvine Kirsch, um psicólogo norte-americano, professor emérito da Universidade de Hull e professor da Universidade de Harvard argumenta que os antidepressivos – de qualquer classe farmacológica! – não são clinicamente melhores que placebos (formas farmacêuticas baseadas em algum ingrediente inerte como a lactose e muito usadas em ensaios clínicos como comparador ao efeito do medicamento sendo testado). O autor chegou a esta conclusão bombástica através de alguns estudos de meta-análise, o mais recente deles (Kirsch, I., et al., 2008) envolvendo ensaios clínicos publicados e também dados de ensaios clínicos realizados pelas indústrias farmacêuticas que não haviam sido publicados porquê continham resultados negativos. Para conseguir acesso aos dados que estavam em poder da FDA (Food and Drug Administration), a agência regulatória dos Estados Unidos responsável pelo registro (licenciamento) dos medicamentos naquele país, Kirsch teve que se utilizar do “Freedom of Information Act”, a lei americana que garante o acesso a informações confidenciais de interesse coletivo. Um estudo de meta-análise é “uma síntese estatística dos resultados numéricos de diversos estudos que avaliaram uma mesma questão (Greenhalg, T., 2001)”, neste caso específico a eficácia de quatro medicamentos da nova geração de antidepressivos, que estão atualmente entre os medicamentos mais prescritos (e mais lucrativos) no mundo.
O Livro de Irving Kirsch desconstrói um a um, e com um poder de argumentação cristalino, os principais alicerces sobre os quais se assenta o tratamento farmacológico da depressão, igualando medicamentos como o Prozac (fluoxetina) a não mais que uma pílula de açúcar em termos de efetividade no tratamento da depressão. Entre os resultados interessantíssimos que Kirsch encontrou, está o fato de que o efeito placebo no caso dos antidepressivos é bastante significativo (ver Gráfico abaixo), e que quando comparado a este efeito, os antidepressivos não são melhores, a não ser em um subgrupo de pacientes com depressão muito severa. Mesmo nos casos de depressão severa, para os quais se acreditava que os antidepressivos tinham máxima eficácia, a diferença entre os seus efeitos e os efeitos do placebo não foi clinicamente significativa. Isto significa que os pacientes sob uso de antidepressivos não melhoram, em média, o suficiente para que a depressão medida na escala de Hamilton mostre melhora acima de 3 pontos (numa escala que tem um total de 51 pontos), que é o limite para se considerar uma melhora clinicamente relevante. E a conclusão de Kirsch, apoiada solidamente nos seus dados, é a de que neste subgrupo de pacientes aonde os antidepressivos parecem funcionar isto não ocorre por que eles possuem maior efetividade, mas ao contrário por que o placebo possui menor efetividade, fazendo com que a diferença entre o efeito dos antidepressivos e do placebo aumente, dando a falsa impressão de que o efeito dos antidepressivos é maior. Isto ocorre aparentemente da seguinte forma: Pacientes mais severamente deprimidos são geralmente tratados com doses maiores de antidepressivos e, portanto sofrem de mais efeitos colaterais. Em ensaios clínicos duplo-cegos (nos quais nem o médico e nem os pacientes sabem quem está a receber o antidepressivo ou o placebo), estes pacientes mais severamente deprimidos, que têm maior probabilidade de já terem sido tratados anteriormente e com doses mais elevadas de antidepressivos, irão facilmente inferir – pela ausência dos graves efeitos colaterais com os quais já estão familiarizados– que estão no grupo que recebe tratamento com placebo, diminuindo o efeito destes, e dando a impressão de que os antidepressivos possuem maior efeito do que de fato têm.
Talvez a conclusão mais inquietante do livro de Kirsch seja a sugestão do autor de que a teoria mais aceita para explicar a depressão está completamente equivocada. Na teoria mais aceita atualmente (talvez não por muito mais tempo!), a depressão seria o resultado de uma diminuição na quantidade de serotonina e/ou noradrenalina cerebrais disponíveis na fenda sináptica (a região entre neurônios adjacentes aonde ocorre a transmissão neuronal). Medicamentos antidepressivos como os ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina) e os ISRSN (inibidores seletivos da recaptação de serotonina e noradrenalina) funcionariam por aumentar a quantidade destes neurotransmissores na fenda sináptica (por inibir a sua recaptação pelo neurônio pré-sináptico). No consenso que se criou (e a palavra criou parece bem apropriada aqui) alguns pacientes possuiriam uma diminuição na disponibilidade de serotonina, outros de noradrenalina ou dopamina e ainda outros pacientes cuja depressão resultaria de uma redução em ambos os neurotransmissores. Mas os dados de vários ensaios clínicos sugerem que a eficácia dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) não é maior do que a dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina e noradrenalina (ISRSN). Este é um fato de difícil conciliação com a teoria bioquímica da deficiência de neurotransmissores na depressão, pois os inibidores seletivos da recaptação da serotonina E da noradrenalina deveriam beneficiar uma proporção maior de pacientes (já que beneficiaria aqueles cuja depressão é devida a diminuição da disponibilidade de serotonina, bem como os que possuem deficiência de noradrenalina e até os que possuem uma deficiência na disponibilidade de ambos) do que os inibidores mais seletivos como os ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina). Além disso, recentemente uma nova classe de antidepressivos foi descoberta, representada pelo medicamento tianeptina, que é na realidade ao contrário dos inibidores da recaptação de serotonina, um ativador da recaptação da serotonina, ou seja, um fármaco que ao contrário do que se supunha ser necessário para tratar a depressão – aumentar os níveis de serotonina – na realidade diminui os níveis de serotonina. Ou seja, os medicamentos antidepressivos além de serem tão efetivos quanto placebos, não devem sua eficácia aparentemente a nenhuma ação sobre os níveis de serotonina cerebrais, já que medicamentos que aumentam este nível, medicamentos que não afetam este nível e até medicamentos que diminuem os níveis de serotonina parecem ter a mesma eficácia.






Kirsch I, Deacon BJ, Huedo-Medina TB, Scoboria A, Moore TJ, et al. (2008) Initial Severity and Antidepressant Benefits: A Meta-Analysis of Data Submitted to the Food and Drug Administration. PLoS Med 5(2): e45. doi:10.1371/journal.pmed.0050045

Kirsch I. The emperor’s new drugs. Exploding the antidepressant myth. Basic Books, Reino Unido, ISBN: 978-0-465-02016-4

sábado, 16 de julho de 2011

Meu Nome é Revolta!

Que a Igreja Universal do Reino de Deus é um covil de bandidos pastores que são amparados pelo Estado em nome da liberdade de culto ninguém disputa. Mas será que isto não deveria ter limites?...Não bastasse a lavagem cerebral nesta horda de miseráveis que estão dispostos a manter a Igreja (e os bispos) com o dinheiro que não têm, agora são as crianças as vítimas mais recentes! O vídeo abaixo mostra o bandido Pastor Guaracy Santos, expondo uma criança de nove anos ao constrangimento de assistir em pleno culto(?) sua mãe em crise de histeria, que é para o bispo uma demonstração clara da possessão demoníaca. Mas a cura para a mãe do menino desta vez não estava nas mãos e na fé exorcizantes do bispo e de sua Igreja, mas na disposição da criança em vender todos os seus pertences (sim, seus brinquedos!!) e doar para a “fogueira santa”. Com certeza é uma estratégia de longo alcance: Daqui a pouco esta criança (se não enlouquecer de vez...) estará no mercado de trabalho, e certamente a sua gratidão com a Igreja não será esquecida...Até quando um Estado apático, que não tem o menor interesse em se indispor com grupos muito bem articulados politicamente, irá assistir a crimes como este?! Segundo reportagem publicada na Folha de São Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/poder/944258-bispo-da-universal-incentiva-crianca-a-dar-brinquedo-a-igreja.shtml) os direitos da criança foram violados. A pergunta que fica é: Quem estará disposto a comprar a briga? A minha aposta é que nada acontecerá...Afinal, aonde podemos demarcar os limites entre o lícito e o ilícito em uma prática completamente irracional, muitas vezes criminosa, mas que é protegida com as benesses do Estado e por uma bancada cada vez maior e mais bem articulada no Congresso Nacional? Enquanto isso, os fiéis da Universal elogiam a “bravura” do menino no Youtube... E Viva a fogueira santa!


sexta-feira, 15 de julho de 2011

Um pouco de humor: As contradições da Bíblia

Este Post é para aqueles que professam pretensiosamente que a Bíblia é um documento de exatidão inabalável...Em um documento histórico escrito há tanto tempo, por tanta gente e tão extensamente editado, seria realmente surpreendente se não houvessem contradições. Seria patético (se não fosse trágico) pregar que a Bíblia tem a capacidade de responder a todos os dilemas éticos e morais de uma sociedade tão radicalmente diferente daquela descrita neste documento histórico, e além disso a capacidade de profetizar sobre eventos ainda por acontecer, especialmente se considerarmos que esta era a época em que eclipses eram interpretados como a ira divina!

Aproveitem.....



domingo, 29 de maio de 2011

O dilema da vivissecção: por um debate menos apaixonado.


Recentemente um artigo que teve destaque no UOL chamou minha atenção. Era intitulado “Vivissecção: mal necessário?”, de autoria de João Epifânio Regis Lima. O artigo criticava o uso de animais em experimentação científica (chamado de vivissecção em sentido amplo), identificando nesta prática uma visão pragmática e positivista e levantando a questão de alternativas à vivissecção. O autor possui formação de biólogo e filósofo (o artigo foi publicado em uma revista de filosofia) e, portanto teria a princípio uma formação bastante privilegiada para discutir o assunto. Entretanto, em minha opinião o autor perdeu a oportunidade de levantar uma discussão importante e, pior do que isso, usou um argumento estéril que não acrescenta nada ao debate. Além disso, em nenhum momento o autor tratou de discutir as alternativas possíveis à vivissecção, como sugeria o título do artigo.
     O argumento central do autor é o de que o uso de animais de experimentação se baseia em um fundamento ultrapassado: na visão positivista e pragmática de mundo representada pelo cartesianismo. Uma visão que encararia os seres vivos como meras “...máquinas que obedecem apenas a leis mecânicas e que são incapazes de sentir dor”, e ainda, em uma “... concepção mecanicista acerca da natureza que, no caso específico das ciências biomédicas, confundia mecanismo com organismo”. Tenho a mais absoluta convicção de que esta não é nem remotamente a  visão que os pesquisadores nas áreas biomédicas possuem dos organismos que estudam, e muito menos ainda que acreditem que mamíferos complexos como camundongos, ratos e coelhos não sejam capazes de sentir dor. Isto é uma afronta brutal à maturidade de nossos pesquisadores e ao grau de avanço que atingimos nas ciências da vida. Mas ainda mais grave a meu ver é a subversão da lógica que o autor usa - algo certamente inesperado vindo de um filósofo treinado - ao querer imputar a uma visão mecanicista, cartesiana, o uso moderno de animais de experimentação. Isto porquê é justamente o contrário: é exatamente o reconhecimento de que um organismo vivo e complexo como um mamífero não se presta ao mero reducionismo cartesiano, a um mecanicismo previsível, que continuamos a precisar de animais de experimentação. Por mais que a humanidade tenha avançado em detalhar as bases moleculares da dor, da neurotransmissão, da imunidade, do controle do ciclo celular, etc. organismos são ordens de magnitude mais complexos que os sistemas envolvidos, e o grau de interdependência entre estes sistemas é algo que só muito rudimentarmente começamos a compreender.  O reconhecimento de que um medicamento precisa passar por ensaios pré-clínicos em um organismo, antes de ser considerado seguro, é um reconhecimento desta complexidade (não há como prescindir de testar a ação no todo, mesmo que as partes indiquem ação eficaz e segura), muito embora haja concomitantemente a  certeza que os experimentos em animais possam ser traduzidos em informações relevantes a outras espécies relacionadas (e é claro que isto pode nem sempre ser verdade). Talvez em um futuro distante possamos simular a vida em um computador, e dispensar completamente o uso de animais de experimentação (e chegaríamos ironicamente a este ponto pelo triunfo do que se poderia chamar de um reducionismo cartesiano definitivo), mas apesar de todo o progresso da ciência, isto é algo que, a meu ver, ainda está muito distante.
     Reclamar uma visão holística no estudo de um organismo complexo, ou de uma patologia complexa como a AIDS, o câncer ou qualquer outra, pode soar bem aos ouvidos “new age” de alguns, mas acrescenta muito pouco ao entendimento real destes problemas complexos. Felizmente ou infelizmente foi através de um certo reducionismo (a única forma prática e comprovadamente bem sucedida de lidar com sistemas muito complexos) que conseguimos avançar tanto. Estudar de forma reducionista o sítio catalítico das proteases do HIV levou ao desenvolvimento dos anti-virais inibidores das proteases; estudar de forma reducionista as proteínas envolvidas no controle do ciclo celular levou a muitos agentes antitumorais utilizados atualmente na terapia de vários tipos de câncer, e a lista poderia continuar ad nauseam. Nenhuma abordagem holística competitiva mostrou-se capaz de fazer frente ao avanço incremental do conhecimento, que o método científico proporciona. Mas o debate sobre o uso de animais em experimentos científicos é importante e atual, pois em sua forma mais extrema (que felizmente ainda não chegou ao nosso país) leva à perseguição e agressão física a pesquisadores e a atentados contra instituições de pesquisa. Além disso, é uma discussão importante e estimulante do ponto de vista filosófico, pois envolve questões morais e éticas muito importantes. De um extremo, há os que defendem o direito à vida em qualquer nível evolutivo e sem qualquer hierarquização. Acho muito difícil a defesa coerente desta forma de pensamento, pois bactérias, protozoários, plantas, insetos, répteis, mamíferos e todas as formas de vida, teriam um direito inalienável de poderem continuar a sua existência sem interferência deliberada por outra espécie. Além de ser incompatível com a nossa própria existência (o ser humano ainda não evoluiu para adquirir capacidade fotossintetizadora, e portanto ainda precisa se alimentar de outros seres vivos), esta visão exclui completamente a possibilidade de utilização de qualquer organismo vivo para pesquisa biomédica. Esta visão extrema também não leva em conta a diferença gigantesca entre um organismo vivo complexo, com um sistema nervoso desenvolvido, capaz de reagir a estímulos dolorosos como um coelho, e uma cultura de células. Do outro extremo há os que defendem que como seres conscientes, que dominaram a linguagem e a tecnologia, os humanos ocupariam uma posição hierárquica destacada evolutivamente e assim teriam o direito adquirido de se utilizar de animais evolutivamente inferiores. Há uma posição intermediária, que a meu ver é a predominante, e sobre a qual tem se baseado toda a legislação sobre ética no uso de animais de experimentação, que é a de se considerar legítimo o uso de animais de experimentação quando: 1) não for possível obter informações válidas sem o uso de animais, ou seja, com testes “in vitro” e 2) quando os benefícios deste uso forem considerados significativamente maiores (qualitativa e quantitativamente) do que o dano infligido aos animais. Mesmo considerando esta posição intermediária como legítima, o uso de animais de experimentação deve ser feito sob condições de estrito controle, de forma a minimizar qualquer sofrimento desnecessário, diminuindo sempre que possível o número de animais, e sempre considerando as alternativas possíveis em cada caso. Neste sentido, os comitês de ética em pesquisa animal precisam estar atentos para que estas salvaguardas estejam garantidas sempre. Temos que ter claro que abdicar do uso de animais de experimentação (dado o nosso conhecimento atual parcial e limitado dos processos fisiológicos e patológicos), significa abdicar da possibilidade de salvar milhões de vidas humanas através do desenvolvimento de novos fármacos, novas vacinas, da avaliação de risco de muitas substâncias potencialmente tóxicas, etc.
     É comum hoje em dia encontramos certa atitude de desprezo pelo avanço do conhecimento científico. Parte deste desprezo parece ser motivada pelo reconhecimento de inúmeros equívocos que aconteceram em nome da ciência, e em parte pela crescente participação de grandes corporações no financiamento da pesquisa e os conflitos de interesse potenciais que esta situação impõe. Talvez tenha sido este mesmo desprezo que levou o autor mencionado no início deste texto a dizer que :

Claude Bernard (1813-1878) em sua Introdução ao Estudo da Medicina Experimental, publicada em 1865 é considerado o pai da moderna fisiologia experimental e o que fez para receber tal homenagem foi justamente tratar a vivissecção como parte indispensável do método experimental nas ciências biomédicas.

e assim ignorar as grandes contribuições do fisiologista francês para a função do pâncreas e do fígado, que foram fundamentais para o entendimento do diabetes mellitus. Acho que a atividade científica merece maior respeito pelo que alcançou para a humanidade. Usando uma frase famosa de A. Einstein:

"Uma coisa que aprendi nessa longa vida: toda nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil- ainda assim é a coisa mais preciosa que nós temos."

domingo, 8 de maio de 2011

Laicismo do Estado em Prática: Humanismo 1 x Intolerância 0

O dia 05 de Maio de 2011 ficará registrado como um dia em que a justiça brasileira aplicou de forma impecável o princípio do laicismo do Estado e ignorou a argumentação tosca e pobre do advogado representante da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que na condição de Amicus curiae (amigo da corte) tentou em vão influenciar os votos dos ministros do supremo. A votação foi simplesmente esmagadora. Por unanimidade, dez ministros do STF reafirmaram a vocação de tolerância e de convivência harmoniosa com a diversidade com a qual deve se pautar um país laico como pretende ser o nosso. Com a decisão, o STF julgou procedente ações que pediam o reconhecimento da união estável entre casais do mesmo sexo. Em sua argumentação solitária, triste, incongruente e irracional, o advogado da CNBB Hugo José Sarubbi Cysneiros de Oliveira começou a sua argumentação de maneira emblemática: "Tolerância tem Limites", disse o advogado num tom digno da época das cruzadas. Em seguida, utilizando uma lógica tosca, quis equiparar a tolerância com a união homoafetiva com a tolerância com crimes como a poligamia e o incesto. Em outra parte de sua argumentação, o advogado da CNBB aponta o parágrafo terceiro do artigo 226 da Constituição Federal, que diz: "Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento". Segundo o advogado, se a constituição fala em homem e mulher, como pode-se interpretar outro sentido que não o de um ser do sexo masculino e outro do sexo feminino. Ainda prossegue: "... E isso eu digo de uma maneira muito tranquila porque aqui não há que se empregar nenhum tipo de raciocínio maniqueísta, aqui não é o bem contra o mal, aqui não são os coitados, arrasados, perseguidos, torturados, contra os todos-poderosos.". Talvez seja uma característica recorrente da igreja fazer vistas-grossas a assuntos espinhosos (como a pedofilia entre os padres católicos), e isso explicaria a argumentação desconectada da realidade do advogado da CNBB. Porquê perseguidos, arrasados e torturados podem bem ser adjetivos aplicados aos milhares de travestis assassinados, vítmas de grupos de extermínio por todo o país, ou aos gays agredidos sem motivo aparente por grupos de intolerância. Mas o curioso na argumentação do advogado da CNBB foi a sua tentativa de não utilizar argumentos baseados no catecismo ou na bíblia como seria de se esperar, mas de tentar insistir na inconstitucionalidade do reconhecimento da união estável homoafetiva, numa falácia argumentativa evidente. Num dos trechos de sua argumentação, em tom claramente desesperador, o advogado afirma que, a depender do resultado do julgamento que estava em curso, portar uma bíblia seria a partir de então um ato criminoso. Será porquê o advogado reconheceu naquele momento que a Bíblia é claramente homofóbica? Ele está absolutamente correto neste ponto. Na medida em que usada como um instrumento que incita a intolerância, a violência, o "olho por olho, dente por dente", a bíblia bem poderia ser considerada criminosa. Que esperneiem os Malafaias, os Bolsonaros e todos os intolerantes ignorantes que podem ser bem uma maioria, mas que neste dia 05 de Maio tiveram os seus preconceitos subvertidos por uma minoria esclarecida.

sábado, 7 de maio de 2011

Nasa Anuncia Resultados de Experimento Épico sobre Espaço-Tempo

04 de Maio, 2011: Einstein estava novamente correto. Há um vórtex no espaço-tempo ao redor da Terra e sua forma condiz precisamente com as previsões da teoria da gravidade de Einstein.
Pesquisadores confirmaram estes aspectos em uma conferência para a imprensa hoje na sede da NASA aonde eles anunciaram os resultados da Sonda Gravity Probe B (GP-B)).
"O espaço-tempo ao redor da Terra parece ser distorcido exatamente como a relatividade geral prevê" diz o físico da Universidade de Stanford Francis Everitt, pesquisador principal da missão Gravity Probe B.
"Este é um resultado épico," adiciona Clifford Will, da Universidade de Washington em St. Louis. Um especialista nas teorias de Einstein, Will coordena um painel independente do Conselho Nacional de Pesquisa organizado pela NASA em 1998 para monitorar e rever os resultados da sonda Gravity Probe B. "Um dia", ele prevê, "isto estará escrito nos livros-texto como um dos experimentos clássicos na história da física."
Tempo e espaço, de acordo com a teoria da relatividade de Einstein, são forjados juntos, formando um tecido  quadri-dimensional chamado "espaço-tempo". A massa da terra afunda esta fábrica, de forma semelhante a uma pessoa pesada sentada no meio de um trampolim. A gravidade, diz Einstein, é simplesmente o movimento de objetos seguindo as linhas curvas desta depressão. Se a Terra fosse estacionária, isto seria o fim da história. Mas a Terra não é estacionária. Nosso planeta gira, e este giro deveria distorcer a  depressão, ligeiramente, puxando-a no formato de um redemoinho em 4 dimensões. Isto é o que a sonda GP-B foi checar no espaço.

 A idéia por trás do experimento é simples:
Coloque um giroscópio rotatório em órbita ao redor da Terra, com o eixo de rotação apontado para alguma estrela distante servindo como ponto de referência fixo. Livre de forças externas, o eixo do giroscópio deverá continuar a apontar para a estrela -- para sempre. Mas se o espaço for deformado, a direção do eixo do giroscópio deve desviar-se com o tempo. Medindo esta mudança na direção com relação à direção da estrela, as deformações no espaço tempo podem ser medidas.

Na prática, o experimento é tremendamente difícil.
Os quatro giroscópios na GP-B são as esferas mais perfeitas já produzidas pelo homem. Estas bolas de quartzo e sílica do tamanho de uma bola de pingue-pongue têm 1,5 polegadas (3,81cm) de diâmetro e nunca se afastam de uma esfera perfeita por mais de 40 camadas atômicas. Se os giroscópios não fossem tão perfeitamente esféricos, seus eixos de rotação iriam bambolear mesmo sem os efeitos da relatividade. De acordo com os cálculos, a deformação do espaço-tempo ao redor da Terra deve causar um desvio no eixo de rotação dos giroscópios de meros 0.041 segundos de arco por ano. Um segundo de arco é 1/3600 de um grau. Para medir este ângulo razoavelmente bem, a sonda GP-B precisa de uma precisão fantástica de 0.0005 segundos de arco. É como medir a espessura de uma folha de papel posicionada lateralmente a uma distância de 100 milhas (160,9Km). "Pesquisadores da GP-B tiveram que inventar toda uma nova tecnologia para tornar isso possível", nota Will.

Eles desenvolveram um satélite "livre de empuxo" que poderia vagar pelas camadas externas da atmosfera da Terra sem perturbar os giroscópios. Eles descobriram como fazer com que o campo magnético da terra não penetrasse o satélite. E eles criaram um mecanismo para medir a rotação dos giroscópios -- sem tocar nos giroscópios. Mais informações sobre  estas tecnologias podem ser encontradas no site Science@NASA story "A Pocket of Near-Perfection." Tornar realidade o experimento foi um desafio excepcional. Mas depois de  um ano de coleta de dados e quase 5 anos de análise, os cientistas da GP-B parecem ter conseguido.
"Nós medimos uma precessão geodética de 6.600 mais ou menos 0.017 segundos de arco e um efeito de  arraste do marco de referência (frame-dragging)  de 0.039 maios ou menos 0.007 segundos de arco", disse Everitt.
 Para leitores que não são especialistas em relatividade: Precessão geodética  é a quantidade de deformação causada pela massa estática da Terra (o afundamento no espaço tempo) e o efeito de arraste do marco de referência (frame dragging effect) é a quantidade de deformação causada pela rotação da Terra (o redemoinho no espaço tempo). Ambos os valores estão em acordo preciso com as previsões de Einstein.
"Na opinião do comitê que eu coordeno, este esforço foi verdadeiramente heróico. Nós ficamos completamente surpresos", diz Will.
Uma concepção artística da deformação do espaço-tempo ao redor de um buraco negro. Créditos:Joe Bergeron da revista Sky & Telescope.
Os resultados da sonda Gravity Probe B deram aos físicos a confiança de que as estranhas previsões da teoria de Einstein estão na verdade corretas, e que estas previsões podem ser aplicadas em outras situações. O tipo de vórtex no espaço-tempo que existe ao redor da Terra é reproduzido e ampliado em outros locais no cosmos-- ao redor de estrelas de nêutrons massivas, buracos negros, e núcleos galáticos ativos. "Se você tentasse girar um giroscópio no espaço-tempo severamente deformado ao redor de um buraco negro, disse Will, "ele não iria apenas bambolear ligeiramente por alguma fração de um grau. Ele iria sofrer uma precessão enorme e possivelmente até virar de ponta cabeça". Em sistemas de buracos negros binários --ou seja, quando um buraco negro orbita outro -- os próprios buracos negros estão girando e assim se comportam como giroscópios. Imagine um sistema de buracos negros em órbita, girando e bamboleando! Este é o tipo de coisa que a relatividade geral prevê e que GP-B nos diz que deve realmente existir. O legado científico da GP-B não está limitado à relatividade geral. O projeto tocou a vida de centenas de jovens cientistas: "Uma vez que o projeto era ligado a uma Universidade, vários alunos foram capazes de trabalhar na GP-B.", disse Everitt. "Mais de 86 teses de PhD em Stanford e mais 14 em outras Universidades receberam bolsas para estudantes trabalharem na GP-B. Centenas de estudantes de graduação e  55 alunos de ensino médio também participaram, incluindo o astronauta  Sally Ride e o laureado com o prêmio Nobel Eric Cornell." O financiamento da NASA para GP-B começou no outono de 1963. Isto significa que  Everitt e alguns colaboradores estiveram planejando, promovendo, construindo, operando e analisando dados do experimento por mais de 47 anos - realmente um esforço épico.
E agora?
Everitt se lembra de um conselho que lhe foi dado pelo seu orientador de doutorado e ganhador do prêmio Nobel Patrick M.S. Blackett: "Se você não puder pensar que física quer pesquisar no futuro, invente alguma nova tecnologia, e esta irá te levar a uma nova física". "Bem," disse Everitt, "nós inventamos 13 novas tecnologias para o GP-B. Quem sabe aonde elas nos levarão?"
Esta jornada épica pode estar no fim das contas apenas começando....

Traduzido do original, publicado no site da NASA.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Medicamentos se degradam mais rapidamente no espaço


Uma pesquisa recente (Evaluation of Physical and Chemical Changes in Pharmaceuticals Flown on Space Missions , Brian Du, Vernie Daniels, Zalman Vaksman,  Jason Boyd, Camille Crady, Lakshmi Putcha, The AAPS Journal, publicado online) indica que medicamentos podem exibir uma taxa de degradação acelerada quando armazenados no espaço. Os autores compararam o teor de vários medicamentos armazenados na terra ou no espaço, por um período de 28 meses. Um total de 35 formulações foram testadas. Após os 28 meses, o teor de princípio ativo nas formulações foi determinado por cromatografia. Um total de 17 formulações armazenadas na terra tiveram teor de princípio ativo dentro das especificações contra apenas nove que atendiam as especificações entre as que foram armazenadas na estação espacial internacional. Os autores implicam a exposição à radiação espacial como responsável pela taxa de degradação acelerada nas formulações. O estudo é importante para a busca de soluções de armazenamento de medicamentos em missões espaciais prolongadas e levanta questões interessantes sobre o efeito da radiação em moléculas orgânicas.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Não era só bullying....

A medida que as evidências começam a ser exploradas, parece cada vez mais claro o papel que idéias religiosas tiveram na mente confusa e perturbada de Wellington Menezes de Oliveira...Por mais que queiram os líderes religiosos se distanciarem do ocorrido, é evidente que sob o prisma distorcido de uma mente doente como a deste jovem, a religião teve um papel importante. A folha de São Paulo publica hoje:

"Havia pelo menos três textos de caráter religioso na casa de Wellington --leia todos eles aqui. Os temas dos textos do pastor eram inferno, alma e espírito, e morte e ressurreição. Nenhum deles induz a ataques homicidas nem faz apologia à violência.
Além desses impressos, a polícia também recolheu textos escritos de próprio punho pelo atirador, nos quais ele tece considerações sobre religião e conceitos de bem e mal.
Um trecho diz: "[...] faço todos os dias minha oração do meio-dia que é a de reconhecimento a Deus e as outras cinco que são de dedicação a Deus e umas 4 horas do dia passo lendo o Alcorão [...] e algumas vezes medito no 11/09".
Em outro trecho, o atirador registra: "meu tempo livre entrego a Deus ao invés de entregar aos prazeres passageiros do mundo... e sei que Deus olhará para meu sacrifício e minhas ações neste mundo com muito favor e satisfação e sei que serei muito bem recompensado." 

Bem sugestivo....




domingo, 10 de abril de 2011

Columbine agora é no Brasil!



A primeira reação é de incredulidade. Não imaginamos nunca que um massacre de crianças em uma escola, promovido por um lunático desequilibrado seja parte da realidade deste país, tantas vezes visto como multicultural e tolerante. Já não nos surpreendemos da mesma forma com notícias deste tipo vinda dos Estados Unidos, país onde este tipo de acontecimento infelizmente não é algo isolado, estimulando a mente fértil (e talvez apressada) de sociólogos, antropólogos e cientistas sociais, na tentativa de explicar como uma sociedade pode levar à tamanha corrupção na mente das pessoas. No Brasil, as primeiras tentativas de entender as motivações de Wellington Menezes de Oliveira - um jovem de 23 anos que matou premeditadamente 12 estudantes de uma escola pública no Rio de Janeiro - se centraram no perfil psicológico do assassino: ele seria uma pessoa isolada, reclusa, de poucos amigos e tímido. Surpreendentemente, a mídia até hoje (2 dias depois do fato) não havia se concentrado na peça mais importante para entendermos as reais motivações do crime: a nota deixada pelo assassino, que entre outras coisas especificava detalhadamente e de forma bizarra, como deveriam tratar seu corpo, como gostaria que o seu velório fosse conduzido e qual destino teria sua residência após a sua morte: 
"Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter um contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão, os que cuidarem de meu sepultamento deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar e me envolver totalmente despido em um lençol branco que está neste prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar, após me envolverem neste lençol poderão me colocar em meu caixão. Se possível, quero ser sepultado ao lado da sepultura onde minha mãe dorme. Minha mãe se chama Dicéa Menezes de Oliveira e está sepultada no cemitério Murundu. Preciso de visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo o que eu fiz rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna. Eu deixei uma casa em Sepetiba da qual nenhum familiar precisa, existem instituições pobres, financiadas por pessoas generosas que cuidam de animais abandonados, eu quero que esse espaço onde eu passei meus últimos meses seja doado a uma dessas instituições, pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se alimentarem, por isso, os que se apropriarem de minha casa, eu peço por favor que tenham bom senso e cumpram o meu pedido, por cumprindo o meu pedido, automaticamente estarão cumprindo a vontade dos pais que desejavam passar esse imóvel para meu nome e todos sabem disso, senão cumprirem meu pedido, automaticamente estarão desrespeitando a vontade dos pais, o que prova que vocês não tem nenhuma consideração pelos nossos pais que já dormem, eu acredito que todos vocês tenham alguma consideração pelos nossos pais, provem isso fazendo o que eu pedi."

Mas a linguagem utilizada por este jovem de 23 anos - que não possuía nenhum antecedente criminal e sem nenhum histórico de agressividade - em sua nota de suicídio (ele sabia que iria morrer, e de fato se matou durante o tiroteio que travou com a polícia) não deixa dúvidas para qualquer pessoa de bom senso: esta era a mente de uma pessoa perturbada. Certamente o desajuste social, o isolamento, uma boa dose de bullying tiveram o seu papel. Mas este jovem de 23 anos encontrou um veneno ainda mais forte para uma mente já perturbada: a religião! Este não é um veneno qualquer. Foi um veneno que encontrou um campo fértil na mente desequilibrada e já fragilizada deste infeliz jovem. Em uma trágica espécie de potencialização, de simbiose, a religião serviu ao mesmo tempo como o veículo e o catalisador que conseguiu transformar o que seria apenas mais um caso de desajuste psicológico e de uma infeliz vítima de bullying num dos casos mais chocantes de assassinato em massa da história recente do País. Em seu livro “God is not Great, How religion poison everything, traduzido para o Português: Deus não é Grande, como a religião envenena tudo”, o escritor e ensaísta americano Christopher Hitchens aborda como a religião mata. A religião hoje mata mais do que qualquer outra coisa, até porquê nós podemos estar sempre certos de que aonde há conflito armado neste planeta, haverá sempre, de forma mais ou menos evidente, motivações religiosas por trás. A esta altura, já posso imaginar o argumento de muitos: “O problema não é a idéia de Deus, e tão pouco a religião, mas o mau uso que alguns fazem delas”. O que, aliás, só faz perpetuar o problema de forma ainda mais grave, pois ao colocar que alguns desvirtuam a religião ou a idéia de Deus, enquanto outros seguem de forma correta os seus dogmas e os códigos de conduta a eles associados, começamos a entrar no terreno perigoso e surreal de hierarquizar as religiões. “Os muçulmanos são terroristas, mas cristãos moderados não podem ser colocados na mesma liga”. Este é um argumento tão fraco e bobo que nem merece consideração. Apenas para não passar sem alguma contestação, a igreja católica apostólica romana, que talvez para muitos em nosso País preencha os critérios de uma religião moderada, pode bem ser lembrada na história como a maior máquina institucionalizada de terror, assassinato, perseguição e atraso na evolução do pensamento científico de todos os tempos. E caso alguns queiram argumentar que isto tudo é coisa do passado, podemos lembrar dos inúmeros casos de abuso sexual associados a padres católicos por todo o mundo, um assunto ao mesmo tempo atual e “tradicionalmente” antigo. A Bíblia, o livro sagrado da maioria dos cristãos, é um péssimo manual de conduta, de ética e de moral:

"Quando te incitar teu irmão, filho da tua mãe, ou teu filho, ou tua filha, ou a mulher do teu seio, ou teu amigo, que te é como a tua alma, dizendo-te em segredo: Vamos, e sirvamos a outros deuses que não conheceste, nem tu nem teus pais; Dentre os deuses dos povos que estão em redor de vós, perto ou longe de ti, desde uma extremidade da terra até à outra extremidade; Não consentirás com ele, nem o ouvirás; nem o teu olho o poupará, nem terás piedade dele, nem o esconderás; Mas certamente o matarás; a tua mão será a primeira contra ele, para o matar; e depois a mão de todo o povo. E o apedrejarás, até que morra, pois te procurou apartar do SENHOR teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão;", Deuteronômio, 13, 6-10.

Mas a religião sempre gozou deste manto de proteção, deste pudor desmedido que não é concedido nem mesmo aos assuntos mais delicados, mas que torna a religião um assunto sempre proibido. Isto explica talvez em parte o silêncio da mídia sobre o fanatismo religioso tão flagrantemente exposto na nota de suicídio de Wellington Menezes de Oliveira. Certamente que este rapaz tinha sérios distúrbios psicológicos. Mas será que ele teria sido capaz de ter matado 12 crianças em uma escola se estes distúrbios psicológicos não tivessem se agravado pelo seu fanatismo religioso? Será que é exagero afirmar que a religião forneceu um arcabouço lógico (para uma mente perturbada) que deu sentido ao seu ato? Difícil saber. Tão difícil quanto ignorar o fato de que a julgar pelo único documento que tivemos acesso, esta mente estava severamente perturbada com ideias sobre a pureza da castidade, a impureza do sexo antes do casamento, vida depois da morte, e uma espécie de certeza de que seu ato se justificava na perspectiva de um fiel literal às ideias de Deus. O mundo na ótica de Wellington (alimentada por boa dose de doutrinação religiosa) estava perdido, e ele tinha uma missão dada por Deus da qual não poderia se furtar. Levar com ele (para onde, eu não sei...) vítimas inocentes era apenas parte do que dava sentido a sua missão. Obviamente que nada disso é novo. Estado psicológico semelhante é encontrado na mente dos terroristas muçulmanos (fortalecido ainda mais pela ideia certamente reconfortante de virgens submissas a espera de um novo mártir chegando no paraíso além-vida), e em fanáticos religiosos de todos os credos. No Brasil é, felizmente, algo mais raro. Mas não podemos ter a certeza de que será sempre assim. Há um alarmante aumento na interferência da religião em assuntos de Estado neste país, com um aumento muito bem orquestrado das bancadas no congresso e no Senado financiadas pelos evangélicos neopentecostais, e representatividade de outras religiões também. Grande parte da mídia televisiva e escrita também está sob domínio destes grupos, financiados pelo dinheiro que vem dos minguados bolsos de gente como Wellington, por efeito de uma lavagem cerebral tão eficaz quanto surpreendente. Um crime amparado no guarda-chuva constitucional do direito a diversidade de credo que é de difícil, mas inevitável digestão. Vivemos a era dos padres-celebridades, e no Brasil, ainda choca mais admitir-se ateu do que gay (não que admitir-se gay devesse ser motivo de choque por ninguém, mas apenas no sentido de comparar os preconceitos). Certamente que muitos profissionais, a maioria mais bem aparelhado nas ciências sociais do que eu, tentarão dar sentido a esta tragédia. O que pode ter acontecido? De quem é a culpa? Alguns dirão que a culpa é de um estado omisso, outros colocarão a culpa no destino fatalista de uma mente perturbada, um caso isolado num país de outro modo tolerante. Há até os mais imaginativos, que dirão que é tudo o resultado de uma conspiração orquestrada pelo estado para conseguir mais recursos superfaturados para a segurança do Rio de Janeiro em clima de Copa do Mundo. Eu tenho a convicção de que é muito mais simples. De que boa parte da culpa deve ser colocada nos pastores ignorantes e nos padres mal-intencionados. No discurso de culpa que permeia as religiões cristãs, mais preocupadas com o demônio e a danação do que com ética, moral e tolerância. Neste sentido, somos assustadoramente parecidos com os Estados Unidos e infelizmente cada vez mais. E é por isso que os tiros de Columbine alcançaram o Realengo.