domingo, 10 de abril de 2011

Columbine agora é no Brasil!



A primeira reação é de incredulidade. Não imaginamos nunca que um massacre de crianças em uma escola, promovido por um lunático desequilibrado seja parte da realidade deste país, tantas vezes visto como multicultural e tolerante. Já não nos surpreendemos da mesma forma com notícias deste tipo vinda dos Estados Unidos, país onde este tipo de acontecimento infelizmente não é algo isolado, estimulando a mente fértil (e talvez apressada) de sociólogos, antropólogos e cientistas sociais, na tentativa de explicar como uma sociedade pode levar à tamanha corrupção na mente das pessoas. No Brasil, as primeiras tentativas de entender as motivações de Wellington Menezes de Oliveira - um jovem de 23 anos que matou premeditadamente 12 estudantes de uma escola pública no Rio de Janeiro - se centraram no perfil psicológico do assassino: ele seria uma pessoa isolada, reclusa, de poucos amigos e tímido. Surpreendentemente, a mídia até hoje (2 dias depois do fato) não havia se concentrado na peça mais importante para entendermos as reais motivações do crime: a nota deixada pelo assassino, que entre outras coisas especificava detalhadamente e de forma bizarra, como deveriam tratar seu corpo, como gostaria que o seu velório fosse conduzido e qual destino teria sua residência após a sua morte: 
"Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter um contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão, os que cuidarem de meu sepultamento deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar e me envolver totalmente despido em um lençol branco que está neste prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar, após me envolverem neste lençol poderão me colocar em meu caixão. Se possível, quero ser sepultado ao lado da sepultura onde minha mãe dorme. Minha mãe se chama Dicéa Menezes de Oliveira e está sepultada no cemitério Murundu. Preciso de visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo o que eu fiz rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna. Eu deixei uma casa em Sepetiba da qual nenhum familiar precisa, existem instituições pobres, financiadas por pessoas generosas que cuidam de animais abandonados, eu quero que esse espaço onde eu passei meus últimos meses seja doado a uma dessas instituições, pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se alimentarem, por isso, os que se apropriarem de minha casa, eu peço por favor que tenham bom senso e cumpram o meu pedido, por cumprindo o meu pedido, automaticamente estarão cumprindo a vontade dos pais que desejavam passar esse imóvel para meu nome e todos sabem disso, senão cumprirem meu pedido, automaticamente estarão desrespeitando a vontade dos pais, o que prova que vocês não tem nenhuma consideração pelos nossos pais que já dormem, eu acredito que todos vocês tenham alguma consideração pelos nossos pais, provem isso fazendo o que eu pedi."

Mas a linguagem utilizada por este jovem de 23 anos - que não possuía nenhum antecedente criminal e sem nenhum histórico de agressividade - em sua nota de suicídio (ele sabia que iria morrer, e de fato se matou durante o tiroteio que travou com a polícia) não deixa dúvidas para qualquer pessoa de bom senso: esta era a mente de uma pessoa perturbada. Certamente o desajuste social, o isolamento, uma boa dose de bullying tiveram o seu papel. Mas este jovem de 23 anos encontrou um veneno ainda mais forte para uma mente já perturbada: a religião! Este não é um veneno qualquer. Foi um veneno que encontrou um campo fértil na mente desequilibrada e já fragilizada deste infeliz jovem. Em uma trágica espécie de potencialização, de simbiose, a religião serviu ao mesmo tempo como o veículo e o catalisador que conseguiu transformar o que seria apenas mais um caso de desajuste psicológico e de uma infeliz vítima de bullying num dos casos mais chocantes de assassinato em massa da história recente do País. Em seu livro “God is not Great, How religion poison everything, traduzido para o Português: Deus não é Grande, como a religião envenena tudo”, o escritor e ensaísta americano Christopher Hitchens aborda como a religião mata. A religião hoje mata mais do que qualquer outra coisa, até porquê nós podemos estar sempre certos de que aonde há conflito armado neste planeta, haverá sempre, de forma mais ou menos evidente, motivações religiosas por trás. A esta altura, já posso imaginar o argumento de muitos: “O problema não é a idéia de Deus, e tão pouco a religião, mas o mau uso que alguns fazem delas”. O que, aliás, só faz perpetuar o problema de forma ainda mais grave, pois ao colocar que alguns desvirtuam a religião ou a idéia de Deus, enquanto outros seguem de forma correta os seus dogmas e os códigos de conduta a eles associados, começamos a entrar no terreno perigoso e surreal de hierarquizar as religiões. “Os muçulmanos são terroristas, mas cristãos moderados não podem ser colocados na mesma liga”. Este é um argumento tão fraco e bobo que nem merece consideração. Apenas para não passar sem alguma contestação, a igreja católica apostólica romana, que talvez para muitos em nosso País preencha os critérios de uma religião moderada, pode bem ser lembrada na história como a maior máquina institucionalizada de terror, assassinato, perseguição e atraso na evolução do pensamento científico de todos os tempos. E caso alguns queiram argumentar que isto tudo é coisa do passado, podemos lembrar dos inúmeros casos de abuso sexual associados a padres católicos por todo o mundo, um assunto ao mesmo tempo atual e “tradicionalmente” antigo. A Bíblia, o livro sagrado da maioria dos cristãos, é um péssimo manual de conduta, de ética e de moral:

"Quando te incitar teu irmão, filho da tua mãe, ou teu filho, ou tua filha, ou a mulher do teu seio, ou teu amigo, que te é como a tua alma, dizendo-te em segredo: Vamos, e sirvamos a outros deuses que não conheceste, nem tu nem teus pais; Dentre os deuses dos povos que estão em redor de vós, perto ou longe de ti, desde uma extremidade da terra até à outra extremidade; Não consentirás com ele, nem o ouvirás; nem o teu olho o poupará, nem terás piedade dele, nem o esconderás; Mas certamente o matarás; a tua mão será a primeira contra ele, para o matar; e depois a mão de todo o povo. E o apedrejarás, até que morra, pois te procurou apartar do SENHOR teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão;", Deuteronômio, 13, 6-10.

Mas a religião sempre gozou deste manto de proteção, deste pudor desmedido que não é concedido nem mesmo aos assuntos mais delicados, mas que torna a religião um assunto sempre proibido. Isto explica talvez em parte o silêncio da mídia sobre o fanatismo religioso tão flagrantemente exposto na nota de suicídio de Wellington Menezes de Oliveira. Certamente que este rapaz tinha sérios distúrbios psicológicos. Mas será que ele teria sido capaz de ter matado 12 crianças em uma escola se estes distúrbios psicológicos não tivessem se agravado pelo seu fanatismo religioso? Será que é exagero afirmar que a religião forneceu um arcabouço lógico (para uma mente perturbada) que deu sentido ao seu ato? Difícil saber. Tão difícil quanto ignorar o fato de que a julgar pelo único documento que tivemos acesso, esta mente estava severamente perturbada com ideias sobre a pureza da castidade, a impureza do sexo antes do casamento, vida depois da morte, e uma espécie de certeza de que seu ato se justificava na perspectiva de um fiel literal às ideias de Deus. O mundo na ótica de Wellington (alimentada por boa dose de doutrinação religiosa) estava perdido, e ele tinha uma missão dada por Deus da qual não poderia se furtar. Levar com ele (para onde, eu não sei...) vítimas inocentes era apenas parte do que dava sentido a sua missão. Obviamente que nada disso é novo. Estado psicológico semelhante é encontrado na mente dos terroristas muçulmanos (fortalecido ainda mais pela ideia certamente reconfortante de virgens submissas a espera de um novo mártir chegando no paraíso além-vida), e em fanáticos religiosos de todos os credos. No Brasil é, felizmente, algo mais raro. Mas não podemos ter a certeza de que será sempre assim. Há um alarmante aumento na interferência da religião em assuntos de Estado neste país, com um aumento muito bem orquestrado das bancadas no congresso e no Senado financiadas pelos evangélicos neopentecostais, e representatividade de outras religiões também. Grande parte da mídia televisiva e escrita também está sob domínio destes grupos, financiados pelo dinheiro que vem dos minguados bolsos de gente como Wellington, por efeito de uma lavagem cerebral tão eficaz quanto surpreendente. Um crime amparado no guarda-chuva constitucional do direito a diversidade de credo que é de difícil, mas inevitável digestão. Vivemos a era dos padres-celebridades, e no Brasil, ainda choca mais admitir-se ateu do que gay (não que admitir-se gay devesse ser motivo de choque por ninguém, mas apenas no sentido de comparar os preconceitos). Certamente que muitos profissionais, a maioria mais bem aparelhado nas ciências sociais do que eu, tentarão dar sentido a esta tragédia. O que pode ter acontecido? De quem é a culpa? Alguns dirão que a culpa é de um estado omisso, outros colocarão a culpa no destino fatalista de uma mente perturbada, um caso isolado num país de outro modo tolerante. Há até os mais imaginativos, que dirão que é tudo o resultado de uma conspiração orquestrada pelo estado para conseguir mais recursos superfaturados para a segurança do Rio de Janeiro em clima de Copa do Mundo. Eu tenho a convicção de que é muito mais simples. De que boa parte da culpa deve ser colocada nos pastores ignorantes e nos padres mal-intencionados. No discurso de culpa que permeia as religiões cristãs, mais preocupadas com o demônio e a danação do que com ética, moral e tolerância. Neste sentido, somos assustadoramente parecidos com os Estados Unidos e infelizmente cada vez mais. E é por isso que os tiros de Columbine alcançaram o Realengo.

9 comentários:

  1. Prezado senhor, postei um comentário e você o censurou. Isto não é uma atitude digna de um professor.
    Exijo retratação.

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  2. Vejamos se entendi um de seus recursos retóricos.
    No quinto parágrafo vc escreve:
    “Mas será que ele teria sido capaz de ter matado 12 crianças em uma escola se estes distúrbios psicológicos não tivessem se agravado pelo seu fanatismo religioso? Será que é exagero afirmar que a religião forneceu um arcabouço lógico (para uma mente perturbada) que deu sentido ao seu ato? Difícil saber.

    No terceiro você escreveu:
    “Em uma trágica espécie de potencialização, de simbiose, a religião serviu ao mesmo tempo como o veículo e o catalisador que conseguiu transformar o que seria apenas mais um caso de desajuste psicológico e de uma infeliz vítima de bullying num dos casos mais chocantes de assassinato em massa da história recente do País.”

    Como pode escrever que é “difícil saber” sendo que antes você ofereceu uma análise sem condicionais, uma análise com afirmações categóricas?

    Eu vou dizer a você outra coisa que os brasileiros estão comprando dos EUA: um discurso paupérrimo em favor do ateísmo e/ou contrário às religiões.

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  3. Olá Anônimo...não fui eu quem censurou o seu comentário, portanto não irei me retratar. Aliás, que tal você se identificar para que possamos discutir melhor as nossas opiniões?

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  4. Caro Yuri,

    Pode ser difícil ter-se certeza (já que o assassino se suicidou), mas os fatos realmente mostram que a probabilidade de que a religião (uma versão certamente deturpada e literal desta) tenha tido um papel importantíssimo no estado mental que levou Wellington a cometer o massacre é elevadíssima. Você tem todo o direito de achar o discurso de muitos ateístas pobres, mas é uma mudança muito bem vinda em relação ao discurso de muitos "religiosos", que não são apenas pobres, mas muitas vezes beiram o criminoso.

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  5. Mais um blog para atacar a religião, isto está virando uma praga.

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  6. Ao menos agora sabemos que você não tem certeza, pois anteriormente (terceiro parágrafo do post) não havia condicionais ou incertezas, apenas uma afirmação categórica.
    É claro que tenho o direito de expressar minha certeza acerca da pobreza lógica e discursiva de certos ateus, mas definitivamente não consigo entender como isso pode ser uma mudança bem vinda.

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  7. Euclides F. Santeiro Filho25 de junho de 2012 07:44

    Na verdade a culpa é do video-game...(isso é uma ironia, viu?)

    "...estimulando a mente fértil (e talvez apressada) de sociólogos, antropólogos e cientistas sociais, na tentativa de explicar como uma sociedade pode levar à tamanha corrupção na mente das pessoas."

    A sua mente não é fértil nem apressada, é isso?

    Então como você pode sugerir uma espécie de oniciência ao dizer que é "elevadíssima a probabilidade de que a religião tenha tido um papel importantíssimo" (Chiquinha mode on)?

    Se eu matar 200 religiosos e deixar uma carta dizendo que foi em nome de Richard Dawkins, o novo ateísmo tem "um papel importantíssimo" nesse massacre?

    Já passou pela sua cabeça de que além de todas as "variáveis complexas" no caso Wellington Menezes o assassino podia não passar de um completo imbecil? E que completos imbecis adoram justificar suas ações dizendo agir em nome de algo, seja religião, ateísmo, ciência ou video-game?

    Fica a dica (de quem largou uma faculdade de sociologia na PUC-SP não pelo aspecto religioso da instituição acadêmica em questão, mas pelo aspecto demasiado esquerdista e secular, capaz de doutrinar os alunos para concepções simplistas da realidade - feito essa presente em seu post).

    Abraços.

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  8. "Se eu matar 200 religiosos e deixar uma carta dizendo que foi em nome de Richard Dawkins, o novo ateísmo tem "um papel importantíssimo" nesse massacre?"

    O ponto que você deveria questionar (e talvez até o faria se tivesse concluído seu curso de sociologia) é que ateus não vivem a matar 200 religiosos por aí após lerem "Deus um delírio", mas religiosos extremistas e fundamentalistas sistematicamente têm cometido atos de terrorismo. Não apenas cometido atos de terrorismo, mas os justificando de acordo com interpretações literais das escrituras.

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  9. Euclides F. Santeiro Filho19 de agosto de 2013 02:03

    É verdade. Ateus não saem por aí a matar religiosos depois de ler 'Deus Um Delírio', mas o fazem depois de ler Karl Marx. E olha que conseguem causar um belo estrago:

    http://pettifoggery.tumblr.com/post/7427551672/the-atrocities-of-theism-and-atheism-compared

    Essa não é a questão. Até no caso de eventos como as Cruzadas e a Inquisição fica impossível dizer se as motivações são meramente religiosas. Idem para os regimes ateus. E se você mesmo diz que são "extremistas e fundamentalistas" o problema, logo o problema não está nas religiões, nos livros sagrados.

    Só que uma coisa é certa: é IMPOSSÍVEL usar as morais religiosas para justificar TODO E QUALQUER tipo de assassinato - apenas os que iriam contra a própria ideia de bem, claramente definida em suas respectivas teologias, é que seriam justificáveis; mas não só é possível justificar TODO E QUALQUER assassinato através do ateísmo, onde a ideia de bem não passa de uma convenção entre sujeitos, como é CONSEQUÊNCIA IMEDIATA E INEXORÁVEL de se excluir uma moralidade absoluta.

    O que você acha mais perigoso? Esse é "o ponto que você deveria questionar"...

    Abraços

    P.S.: Se eu tivesse concluído o curso de Sociologia na PUC, o máximo que conseguiria era uma legitimação formal para falar bobagem. Como diria o filósofo Raulistóteles: "Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz.".

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