terça-feira, 19 de abril de 2011

Medicamentos se degradam mais rapidamente no espaço


Uma pesquisa recente (Evaluation of Physical and Chemical Changes in Pharmaceuticals Flown on Space Missions , Brian Du, Vernie Daniels, Zalman Vaksman,  Jason Boyd, Camille Crady, Lakshmi Putcha, The AAPS Journal, publicado online) indica que medicamentos podem exibir uma taxa de degradação acelerada quando armazenados no espaço. Os autores compararam o teor de vários medicamentos armazenados na terra ou no espaço, por um período de 28 meses. Um total de 35 formulações foram testadas. Após os 28 meses, o teor de princípio ativo nas formulações foi determinado por cromatografia. Um total de 17 formulações armazenadas na terra tiveram teor de princípio ativo dentro das especificações contra apenas nove que atendiam as especificações entre as que foram armazenadas na estação espacial internacional. Os autores implicam a exposição à radiação espacial como responsável pela taxa de degradação acelerada nas formulações. O estudo é importante para a busca de soluções de armazenamento de medicamentos em missões espaciais prolongadas e levanta questões interessantes sobre o efeito da radiação em moléculas orgânicas.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Não era só bullying....

A medida que as evidências começam a ser exploradas, parece cada vez mais claro o papel que idéias religiosas tiveram na mente confusa e perturbada de Wellington Menezes de Oliveira...Por mais que queiram os líderes religiosos se distanciarem do ocorrido, é evidente que sob o prisma distorcido de uma mente doente como a deste jovem, a religião teve um papel importante. A folha de São Paulo publica hoje:

"Havia pelo menos três textos de caráter religioso na casa de Wellington --leia todos eles aqui. Os temas dos textos do pastor eram inferno, alma e espírito, e morte e ressurreição. Nenhum deles induz a ataques homicidas nem faz apologia à violência.
Além desses impressos, a polícia também recolheu textos escritos de próprio punho pelo atirador, nos quais ele tece considerações sobre religião e conceitos de bem e mal.
Um trecho diz: "[...] faço todos os dias minha oração do meio-dia que é a de reconhecimento a Deus e as outras cinco que são de dedicação a Deus e umas 4 horas do dia passo lendo o Alcorão [...] e algumas vezes medito no 11/09".
Em outro trecho, o atirador registra: "meu tempo livre entrego a Deus ao invés de entregar aos prazeres passageiros do mundo... e sei que Deus olhará para meu sacrifício e minhas ações neste mundo com muito favor e satisfação e sei que serei muito bem recompensado." 

Bem sugestivo....




domingo, 10 de abril de 2011

Columbine agora é no Brasil!



A primeira reação é de incredulidade. Não imaginamos nunca que um massacre de crianças em uma escola, promovido por um lunático desequilibrado seja parte da realidade deste país, tantas vezes visto como multicultural e tolerante. Já não nos surpreendemos da mesma forma com notícias deste tipo vinda dos Estados Unidos, país onde este tipo de acontecimento infelizmente não é algo isolado, estimulando a mente fértil (e talvez apressada) de sociólogos, antropólogos e cientistas sociais, na tentativa de explicar como uma sociedade pode levar à tamanha corrupção na mente das pessoas. No Brasil, as primeiras tentativas de entender as motivações de Wellington Menezes de Oliveira - um jovem de 23 anos que matou premeditadamente 12 estudantes de uma escola pública no Rio de Janeiro - se centraram no perfil psicológico do assassino: ele seria uma pessoa isolada, reclusa, de poucos amigos e tímido. Surpreendentemente, a mídia até hoje (2 dias depois do fato) não havia se concentrado na peça mais importante para entendermos as reais motivações do crime: a nota deixada pelo assassino, que entre outras coisas especificava detalhadamente e de forma bizarra, como deveriam tratar seu corpo, como gostaria que o seu velório fosse conduzido e qual destino teria sua residência após a sua morte: 
"Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter um contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão, os que cuidarem de meu sepultamento deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar e me envolver totalmente despido em um lençol branco que está neste prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar, após me envolverem neste lençol poderão me colocar em meu caixão. Se possível, quero ser sepultado ao lado da sepultura onde minha mãe dorme. Minha mãe se chama Dicéa Menezes de Oliveira e está sepultada no cemitério Murundu. Preciso de visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo o que eu fiz rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna. Eu deixei uma casa em Sepetiba da qual nenhum familiar precisa, existem instituições pobres, financiadas por pessoas generosas que cuidam de animais abandonados, eu quero que esse espaço onde eu passei meus últimos meses seja doado a uma dessas instituições, pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se alimentarem, por isso, os que se apropriarem de minha casa, eu peço por favor que tenham bom senso e cumpram o meu pedido, por cumprindo o meu pedido, automaticamente estarão cumprindo a vontade dos pais que desejavam passar esse imóvel para meu nome e todos sabem disso, senão cumprirem meu pedido, automaticamente estarão desrespeitando a vontade dos pais, o que prova que vocês não tem nenhuma consideração pelos nossos pais que já dormem, eu acredito que todos vocês tenham alguma consideração pelos nossos pais, provem isso fazendo o que eu pedi."

Mas a linguagem utilizada por este jovem de 23 anos - que não possuía nenhum antecedente criminal e sem nenhum histórico de agressividade - em sua nota de suicídio (ele sabia que iria morrer, e de fato se matou durante o tiroteio que travou com a polícia) não deixa dúvidas para qualquer pessoa de bom senso: esta era a mente de uma pessoa perturbada. Certamente o desajuste social, o isolamento, uma boa dose de bullying tiveram o seu papel. Mas este jovem de 23 anos encontrou um veneno ainda mais forte para uma mente já perturbada: a religião! Este não é um veneno qualquer. Foi um veneno que encontrou um campo fértil na mente desequilibrada e já fragilizada deste infeliz jovem. Em uma trágica espécie de potencialização, de simbiose, a religião serviu ao mesmo tempo como o veículo e o catalisador que conseguiu transformar o que seria apenas mais um caso de desajuste psicológico e de uma infeliz vítima de bullying num dos casos mais chocantes de assassinato em massa da história recente do País. Em seu livro “God is not Great, How religion poison everything, traduzido para o Português: Deus não é Grande, como a religião envenena tudo”, o escritor e ensaísta americano Christopher Hitchens aborda como a religião mata. A religião hoje mata mais do que qualquer outra coisa, até porquê nós podemos estar sempre certos de que aonde há conflito armado neste planeta, haverá sempre, de forma mais ou menos evidente, motivações religiosas por trás. A esta altura, já posso imaginar o argumento de muitos: “O problema não é a idéia de Deus, e tão pouco a religião, mas o mau uso que alguns fazem delas”. O que, aliás, só faz perpetuar o problema de forma ainda mais grave, pois ao colocar que alguns desvirtuam a religião ou a idéia de Deus, enquanto outros seguem de forma correta os seus dogmas e os códigos de conduta a eles associados, começamos a entrar no terreno perigoso e surreal de hierarquizar as religiões. “Os muçulmanos são terroristas, mas cristãos moderados não podem ser colocados na mesma liga”. Este é um argumento tão fraco e bobo que nem merece consideração. Apenas para não passar sem alguma contestação, a igreja católica apostólica romana, que talvez para muitos em nosso País preencha os critérios de uma religião moderada, pode bem ser lembrada na história como a maior máquina institucionalizada de terror, assassinato, perseguição e atraso na evolução do pensamento científico de todos os tempos. E caso alguns queiram argumentar que isto tudo é coisa do passado, podemos lembrar dos inúmeros casos de abuso sexual associados a padres católicos por todo o mundo, um assunto ao mesmo tempo atual e “tradicionalmente” antigo. A Bíblia, o livro sagrado da maioria dos cristãos, é um péssimo manual de conduta, de ética e de moral:

"Quando te incitar teu irmão, filho da tua mãe, ou teu filho, ou tua filha, ou a mulher do teu seio, ou teu amigo, que te é como a tua alma, dizendo-te em segredo: Vamos, e sirvamos a outros deuses que não conheceste, nem tu nem teus pais; Dentre os deuses dos povos que estão em redor de vós, perto ou longe de ti, desde uma extremidade da terra até à outra extremidade; Não consentirás com ele, nem o ouvirás; nem o teu olho o poupará, nem terás piedade dele, nem o esconderás; Mas certamente o matarás; a tua mão será a primeira contra ele, para o matar; e depois a mão de todo o povo. E o apedrejarás, até que morra, pois te procurou apartar do SENHOR teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão;", Deuteronômio, 13, 6-10.

Mas a religião sempre gozou deste manto de proteção, deste pudor desmedido que não é concedido nem mesmo aos assuntos mais delicados, mas que torna a religião um assunto sempre proibido. Isto explica talvez em parte o silêncio da mídia sobre o fanatismo religioso tão flagrantemente exposto na nota de suicídio de Wellington Menezes de Oliveira. Certamente que este rapaz tinha sérios distúrbios psicológicos. Mas será que ele teria sido capaz de ter matado 12 crianças em uma escola se estes distúrbios psicológicos não tivessem se agravado pelo seu fanatismo religioso? Será que é exagero afirmar que a religião forneceu um arcabouço lógico (para uma mente perturbada) que deu sentido ao seu ato? Difícil saber. Tão difícil quanto ignorar o fato de que a julgar pelo único documento que tivemos acesso, esta mente estava severamente perturbada com ideias sobre a pureza da castidade, a impureza do sexo antes do casamento, vida depois da morte, e uma espécie de certeza de que seu ato se justificava na perspectiva de um fiel literal às ideias de Deus. O mundo na ótica de Wellington (alimentada por boa dose de doutrinação religiosa) estava perdido, e ele tinha uma missão dada por Deus da qual não poderia se furtar. Levar com ele (para onde, eu não sei...) vítimas inocentes era apenas parte do que dava sentido a sua missão. Obviamente que nada disso é novo. Estado psicológico semelhante é encontrado na mente dos terroristas muçulmanos (fortalecido ainda mais pela ideia certamente reconfortante de virgens submissas a espera de um novo mártir chegando no paraíso além-vida), e em fanáticos religiosos de todos os credos. No Brasil é, felizmente, algo mais raro. Mas não podemos ter a certeza de que será sempre assim. Há um alarmante aumento na interferência da religião em assuntos de Estado neste país, com um aumento muito bem orquestrado das bancadas no congresso e no Senado financiadas pelos evangélicos neopentecostais, e representatividade de outras religiões também. Grande parte da mídia televisiva e escrita também está sob domínio destes grupos, financiados pelo dinheiro que vem dos minguados bolsos de gente como Wellington, por efeito de uma lavagem cerebral tão eficaz quanto surpreendente. Um crime amparado no guarda-chuva constitucional do direito a diversidade de credo que é de difícil, mas inevitável digestão. Vivemos a era dos padres-celebridades, e no Brasil, ainda choca mais admitir-se ateu do que gay (não que admitir-se gay devesse ser motivo de choque por ninguém, mas apenas no sentido de comparar os preconceitos). Certamente que muitos profissionais, a maioria mais bem aparelhado nas ciências sociais do que eu, tentarão dar sentido a esta tragédia. O que pode ter acontecido? De quem é a culpa? Alguns dirão que a culpa é de um estado omisso, outros colocarão a culpa no destino fatalista de uma mente perturbada, um caso isolado num país de outro modo tolerante. Há até os mais imaginativos, que dirão que é tudo o resultado de uma conspiração orquestrada pelo estado para conseguir mais recursos superfaturados para a segurança do Rio de Janeiro em clima de Copa do Mundo. Eu tenho a convicção de que é muito mais simples. De que boa parte da culpa deve ser colocada nos pastores ignorantes e nos padres mal-intencionados. No discurso de culpa que permeia as religiões cristãs, mais preocupadas com o demônio e a danação do que com ética, moral e tolerância. Neste sentido, somos assustadoramente parecidos com os Estados Unidos e infelizmente cada vez mais. E é por isso que os tiros de Columbine alcançaram o Realengo.