domingo, 29 de maio de 2011

O dilema da vivissecção: por um debate menos apaixonado.


Recentemente um artigo que teve destaque no UOL chamou minha atenção. Era intitulado “Vivissecção: mal necessário?”, de autoria de João Epifânio Regis Lima. O artigo criticava o uso de animais em experimentação científica (chamado de vivissecção em sentido amplo), identificando nesta prática uma visão pragmática e positivista e levantando a questão de alternativas à vivissecção. O autor possui formação de biólogo e filósofo (o artigo foi publicado em uma revista de filosofia) e, portanto teria a princípio uma formação bastante privilegiada para discutir o assunto. Entretanto, em minha opinião o autor perdeu a oportunidade de levantar uma discussão importante e, pior do que isso, usou um argumento estéril que não acrescenta nada ao debate. Além disso, em nenhum momento o autor tratou de discutir as alternativas possíveis à vivissecção, como sugeria o título do artigo.
     O argumento central do autor é o de que o uso de animais de experimentação se baseia em um fundamento ultrapassado: na visão positivista e pragmática de mundo representada pelo cartesianismo. Uma visão que encararia os seres vivos como meras “...máquinas que obedecem apenas a leis mecânicas e que são incapazes de sentir dor”, e ainda, em uma “... concepção mecanicista acerca da natureza que, no caso específico das ciências biomédicas, confundia mecanismo com organismo”. Tenho a mais absoluta convicção de que esta não é nem remotamente a  visão que os pesquisadores nas áreas biomédicas possuem dos organismos que estudam, e muito menos ainda que acreditem que mamíferos complexos como camundongos, ratos e coelhos não sejam capazes de sentir dor. Isto é uma afronta brutal à maturidade de nossos pesquisadores e ao grau de avanço que atingimos nas ciências da vida. Mas ainda mais grave a meu ver é a subversão da lógica que o autor usa - algo certamente inesperado vindo de um filósofo treinado - ao querer imputar a uma visão mecanicista, cartesiana, o uso moderno de animais de experimentação. Isto porquê é justamente o contrário: é exatamente o reconhecimento de que um organismo vivo e complexo como um mamífero não se presta ao mero reducionismo cartesiano, a um mecanicismo previsível, que continuamos a precisar de animais de experimentação. Por mais que a humanidade tenha avançado em detalhar as bases moleculares da dor, da neurotransmissão, da imunidade, do controle do ciclo celular, etc. organismos são ordens de magnitude mais complexos que os sistemas envolvidos, e o grau de interdependência entre estes sistemas é algo que só muito rudimentarmente começamos a compreender.  O reconhecimento de que um medicamento precisa passar por ensaios pré-clínicos em um organismo, antes de ser considerado seguro, é um reconhecimento desta complexidade (não há como prescindir de testar a ação no todo, mesmo que as partes indiquem ação eficaz e segura), muito embora haja concomitantemente a  certeza que os experimentos em animais possam ser traduzidos em informações relevantes a outras espécies relacionadas (e é claro que isto pode nem sempre ser verdade). Talvez em um futuro distante possamos simular a vida em um computador, e dispensar completamente o uso de animais de experimentação (e chegaríamos ironicamente a este ponto pelo triunfo do que se poderia chamar de um reducionismo cartesiano definitivo), mas apesar de todo o progresso da ciência, isto é algo que, a meu ver, ainda está muito distante.
     Reclamar uma visão holística no estudo de um organismo complexo, ou de uma patologia complexa como a AIDS, o câncer ou qualquer outra, pode soar bem aos ouvidos “new age” de alguns, mas acrescenta muito pouco ao entendimento real destes problemas complexos. Felizmente ou infelizmente foi através de um certo reducionismo (a única forma prática e comprovadamente bem sucedida de lidar com sistemas muito complexos) que conseguimos avançar tanto. Estudar de forma reducionista o sítio catalítico das proteases do HIV levou ao desenvolvimento dos anti-virais inibidores das proteases; estudar de forma reducionista as proteínas envolvidas no controle do ciclo celular levou a muitos agentes antitumorais utilizados atualmente na terapia de vários tipos de câncer, e a lista poderia continuar ad nauseam. Nenhuma abordagem holística competitiva mostrou-se capaz de fazer frente ao avanço incremental do conhecimento, que o método científico proporciona. Mas o debate sobre o uso de animais em experimentos científicos é importante e atual, pois em sua forma mais extrema (que felizmente ainda não chegou ao nosso país) leva à perseguição e agressão física a pesquisadores e a atentados contra instituições de pesquisa. Além disso, é uma discussão importante e estimulante do ponto de vista filosófico, pois envolve questões morais e éticas muito importantes. De um extremo, há os que defendem o direito à vida em qualquer nível evolutivo e sem qualquer hierarquização. Acho muito difícil a defesa coerente desta forma de pensamento, pois bactérias, protozoários, plantas, insetos, répteis, mamíferos e todas as formas de vida, teriam um direito inalienável de poderem continuar a sua existência sem interferência deliberada por outra espécie. Além de ser incompatível com a nossa própria existência (o ser humano ainda não evoluiu para adquirir capacidade fotossintetizadora, e portanto ainda precisa se alimentar de outros seres vivos), esta visão exclui completamente a possibilidade de utilização de qualquer organismo vivo para pesquisa biomédica. Esta visão extrema também não leva em conta a diferença gigantesca entre um organismo vivo complexo, com um sistema nervoso desenvolvido, capaz de reagir a estímulos dolorosos como um coelho, e uma cultura de células. Do outro extremo há os que defendem que como seres conscientes, que dominaram a linguagem e a tecnologia, os humanos ocupariam uma posição hierárquica destacada evolutivamente e assim teriam o direito adquirido de se utilizar de animais evolutivamente inferiores. Há uma posição intermediária, que a meu ver é a predominante, e sobre a qual tem se baseado toda a legislação sobre ética no uso de animais de experimentação, que é a de se considerar legítimo o uso de animais de experimentação quando: 1) não for possível obter informações válidas sem o uso de animais, ou seja, com testes “in vitro” e 2) quando os benefícios deste uso forem considerados significativamente maiores (qualitativa e quantitativamente) do que o dano infligido aos animais. Mesmo considerando esta posição intermediária como legítima, o uso de animais de experimentação deve ser feito sob condições de estrito controle, de forma a minimizar qualquer sofrimento desnecessário, diminuindo sempre que possível o número de animais, e sempre considerando as alternativas possíveis em cada caso. Neste sentido, os comitês de ética em pesquisa animal precisam estar atentos para que estas salvaguardas estejam garantidas sempre. Temos que ter claro que abdicar do uso de animais de experimentação (dado o nosso conhecimento atual parcial e limitado dos processos fisiológicos e patológicos), significa abdicar da possibilidade de salvar milhões de vidas humanas através do desenvolvimento de novos fármacos, novas vacinas, da avaliação de risco de muitas substâncias potencialmente tóxicas, etc.
     É comum hoje em dia encontramos certa atitude de desprezo pelo avanço do conhecimento científico. Parte deste desprezo parece ser motivada pelo reconhecimento de inúmeros equívocos que aconteceram em nome da ciência, e em parte pela crescente participação de grandes corporações no financiamento da pesquisa e os conflitos de interesse potenciais que esta situação impõe. Talvez tenha sido este mesmo desprezo que levou o autor mencionado no início deste texto a dizer que :

Claude Bernard (1813-1878) em sua Introdução ao Estudo da Medicina Experimental, publicada em 1865 é considerado o pai da moderna fisiologia experimental e o que fez para receber tal homenagem foi justamente tratar a vivissecção como parte indispensável do método experimental nas ciências biomédicas.

e assim ignorar as grandes contribuições do fisiologista francês para a função do pâncreas e do fígado, que foram fundamentais para o entendimento do diabetes mellitus. Acho que a atividade científica merece maior respeito pelo que alcançou para a humanidade. Usando uma frase famosa de A. Einstein:

"Uma coisa que aprendi nessa longa vida: toda nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil- ainda assim é a coisa mais preciosa que nós temos."

domingo, 8 de maio de 2011

Laicismo do Estado em Prática: Humanismo 1 x Intolerância 0

O dia 05 de Maio de 2011 ficará registrado como um dia em que a justiça brasileira aplicou de forma impecável o princípio do laicismo do Estado e ignorou a argumentação tosca e pobre do advogado representante da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que na condição de Amicus curiae (amigo da corte) tentou em vão influenciar os votos dos ministros do supremo. A votação foi simplesmente esmagadora. Por unanimidade, dez ministros do STF reafirmaram a vocação de tolerância e de convivência harmoniosa com a diversidade com a qual deve se pautar um país laico como pretende ser o nosso. Com a decisão, o STF julgou procedente ações que pediam o reconhecimento da união estável entre casais do mesmo sexo. Em sua argumentação solitária, triste, incongruente e irracional, o advogado da CNBB Hugo José Sarubbi Cysneiros de Oliveira começou a sua argumentação de maneira emblemática: "Tolerância tem Limites", disse o advogado num tom digno da época das cruzadas. Em seguida, utilizando uma lógica tosca, quis equiparar a tolerância com a união homoafetiva com a tolerância com crimes como a poligamia e o incesto. Em outra parte de sua argumentação, o advogado da CNBB aponta o parágrafo terceiro do artigo 226 da Constituição Federal, que diz: "Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento". Segundo o advogado, se a constituição fala em homem e mulher, como pode-se interpretar outro sentido que não o de um ser do sexo masculino e outro do sexo feminino. Ainda prossegue: "... E isso eu digo de uma maneira muito tranquila porque aqui não há que se empregar nenhum tipo de raciocínio maniqueísta, aqui não é o bem contra o mal, aqui não são os coitados, arrasados, perseguidos, torturados, contra os todos-poderosos.". Talvez seja uma característica recorrente da igreja fazer vistas-grossas a assuntos espinhosos (como a pedofilia entre os padres católicos), e isso explicaria a argumentação desconectada da realidade do advogado da CNBB. Porquê perseguidos, arrasados e torturados podem bem ser adjetivos aplicados aos milhares de travestis assassinados, vítmas de grupos de extermínio por todo o país, ou aos gays agredidos sem motivo aparente por grupos de intolerância. Mas o curioso na argumentação do advogado da CNBB foi a sua tentativa de não utilizar argumentos baseados no catecismo ou na bíblia como seria de se esperar, mas de tentar insistir na inconstitucionalidade do reconhecimento da união estável homoafetiva, numa falácia argumentativa evidente. Num dos trechos de sua argumentação, em tom claramente desesperador, o advogado afirma que, a depender do resultado do julgamento que estava em curso, portar uma bíblia seria a partir de então um ato criminoso. Será porquê o advogado reconheceu naquele momento que a Bíblia é claramente homofóbica? Ele está absolutamente correto neste ponto. Na medida em que usada como um instrumento que incita a intolerância, a violência, o "olho por olho, dente por dente", a bíblia bem poderia ser considerada criminosa. Que esperneiem os Malafaias, os Bolsonaros e todos os intolerantes ignorantes que podem ser bem uma maioria, mas que neste dia 05 de Maio tiveram os seus preconceitos subvertidos por uma minoria esclarecida.

sábado, 7 de maio de 2011

Nasa Anuncia Resultados de Experimento Épico sobre Espaço-Tempo

04 de Maio, 2011: Einstein estava novamente correto. Há um vórtex no espaço-tempo ao redor da Terra e sua forma condiz precisamente com as previsões da teoria da gravidade de Einstein.
Pesquisadores confirmaram estes aspectos em uma conferência para a imprensa hoje na sede da NASA aonde eles anunciaram os resultados da Sonda Gravity Probe B (GP-B)).
"O espaço-tempo ao redor da Terra parece ser distorcido exatamente como a relatividade geral prevê" diz o físico da Universidade de Stanford Francis Everitt, pesquisador principal da missão Gravity Probe B.
"Este é um resultado épico," adiciona Clifford Will, da Universidade de Washington em St. Louis. Um especialista nas teorias de Einstein, Will coordena um painel independente do Conselho Nacional de Pesquisa organizado pela NASA em 1998 para monitorar e rever os resultados da sonda Gravity Probe B. "Um dia", ele prevê, "isto estará escrito nos livros-texto como um dos experimentos clássicos na história da física."
Tempo e espaço, de acordo com a teoria da relatividade de Einstein, são forjados juntos, formando um tecido  quadri-dimensional chamado "espaço-tempo". A massa da terra afunda esta fábrica, de forma semelhante a uma pessoa pesada sentada no meio de um trampolim. A gravidade, diz Einstein, é simplesmente o movimento de objetos seguindo as linhas curvas desta depressão. Se a Terra fosse estacionária, isto seria o fim da história. Mas a Terra não é estacionária. Nosso planeta gira, e este giro deveria distorcer a  depressão, ligeiramente, puxando-a no formato de um redemoinho em 4 dimensões. Isto é o que a sonda GP-B foi checar no espaço.

 A idéia por trás do experimento é simples:
Coloque um giroscópio rotatório em órbita ao redor da Terra, com o eixo de rotação apontado para alguma estrela distante servindo como ponto de referência fixo. Livre de forças externas, o eixo do giroscópio deverá continuar a apontar para a estrela -- para sempre. Mas se o espaço for deformado, a direção do eixo do giroscópio deve desviar-se com o tempo. Medindo esta mudança na direção com relação à direção da estrela, as deformações no espaço tempo podem ser medidas.

Na prática, o experimento é tremendamente difícil.
Os quatro giroscópios na GP-B são as esferas mais perfeitas já produzidas pelo homem. Estas bolas de quartzo e sílica do tamanho de uma bola de pingue-pongue têm 1,5 polegadas (3,81cm) de diâmetro e nunca se afastam de uma esfera perfeita por mais de 40 camadas atômicas. Se os giroscópios não fossem tão perfeitamente esféricos, seus eixos de rotação iriam bambolear mesmo sem os efeitos da relatividade. De acordo com os cálculos, a deformação do espaço-tempo ao redor da Terra deve causar um desvio no eixo de rotação dos giroscópios de meros 0.041 segundos de arco por ano. Um segundo de arco é 1/3600 de um grau. Para medir este ângulo razoavelmente bem, a sonda GP-B precisa de uma precisão fantástica de 0.0005 segundos de arco. É como medir a espessura de uma folha de papel posicionada lateralmente a uma distância de 100 milhas (160,9Km). "Pesquisadores da GP-B tiveram que inventar toda uma nova tecnologia para tornar isso possível", nota Will.

Eles desenvolveram um satélite "livre de empuxo" que poderia vagar pelas camadas externas da atmosfera da Terra sem perturbar os giroscópios. Eles descobriram como fazer com que o campo magnético da terra não penetrasse o satélite. E eles criaram um mecanismo para medir a rotação dos giroscópios -- sem tocar nos giroscópios. Mais informações sobre  estas tecnologias podem ser encontradas no site Science@NASA story "A Pocket of Near-Perfection." Tornar realidade o experimento foi um desafio excepcional. Mas depois de  um ano de coleta de dados e quase 5 anos de análise, os cientistas da GP-B parecem ter conseguido.
"Nós medimos uma precessão geodética de 6.600 mais ou menos 0.017 segundos de arco e um efeito de  arraste do marco de referência (frame-dragging)  de 0.039 maios ou menos 0.007 segundos de arco", disse Everitt.
 Para leitores que não são especialistas em relatividade: Precessão geodética  é a quantidade de deformação causada pela massa estática da Terra (o afundamento no espaço tempo) e o efeito de arraste do marco de referência (frame dragging effect) é a quantidade de deformação causada pela rotação da Terra (o redemoinho no espaço tempo). Ambos os valores estão em acordo preciso com as previsões de Einstein.
"Na opinião do comitê que eu coordeno, este esforço foi verdadeiramente heróico. Nós ficamos completamente surpresos", diz Will.
Uma concepção artística da deformação do espaço-tempo ao redor de um buraco negro. Créditos:Joe Bergeron da revista Sky & Telescope.
Os resultados da sonda Gravity Probe B deram aos físicos a confiança de que as estranhas previsões da teoria de Einstein estão na verdade corretas, e que estas previsões podem ser aplicadas em outras situações. O tipo de vórtex no espaço-tempo que existe ao redor da Terra é reproduzido e ampliado em outros locais no cosmos-- ao redor de estrelas de nêutrons massivas, buracos negros, e núcleos galáticos ativos. "Se você tentasse girar um giroscópio no espaço-tempo severamente deformado ao redor de um buraco negro, disse Will, "ele não iria apenas bambolear ligeiramente por alguma fração de um grau. Ele iria sofrer uma precessão enorme e possivelmente até virar de ponta cabeça". Em sistemas de buracos negros binários --ou seja, quando um buraco negro orbita outro -- os próprios buracos negros estão girando e assim se comportam como giroscópios. Imagine um sistema de buracos negros em órbita, girando e bamboleando! Este é o tipo de coisa que a relatividade geral prevê e que GP-B nos diz que deve realmente existir. O legado científico da GP-B não está limitado à relatividade geral. O projeto tocou a vida de centenas de jovens cientistas: "Uma vez que o projeto era ligado a uma Universidade, vários alunos foram capazes de trabalhar na GP-B.", disse Everitt. "Mais de 86 teses de PhD em Stanford e mais 14 em outras Universidades receberam bolsas para estudantes trabalharem na GP-B. Centenas de estudantes de graduação e  55 alunos de ensino médio também participaram, incluindo o astronauta  Sally Ride e o laureado com o prêmio Nobel Eric Cornell." O financiamento da NASA para GP-B começou no outono de 1963. Isto significa que  Everitt e alguns colaboradores estiveram planejando, promovendo, construindo, operando e analisando dados do experimento por mais de 47 anos - realmente um esforço épico.
E agora?
Everitt se lembra de um conselho que lhe foi dado pelo seu orientador de doutorado e ganhador do prêmio Nobel Patrick M.S. Blackett: "Se você não puder pensar que física quer pesquisar no futuro, invente alguma nova tecnologia, e esta irá te levar a uma nova física". "Bem," disse Everitt, "nós inventamos 13 novas tecnologias para o GP-B. Quem sabe aonde elas nos levarão?"
Esta jornada épica pode estar no fim das contas apenas começando....

Traduzido do original, publicado no site da NASA.