domingo, 25 de março de 2012

Ciência x Religião: O que as estatísticas nos mostram?


Existem muitos cientistas que acreditam em Deus? Bem, a pergunta, colocada desta forma, suscita perguntas adicionais. O que queremos dizer exatamente com “acreditam em Deus”? Deixando este pequeno problema de lado por ora, sem se preocupar com exatamente o que queremos dizer com a pergunta, a resposta mais sincera e direta é: Sim, claro que existem cientistas que acreditam em Deus. Quantos são? Bem, esta pergunta já foi feita antes, e a sua resposta é o que tentarei discutir neste post. James Henry Leuba (1867-1946) foi um psicólogo norte-americano que ficou conhecido pelo seu trabalho no campo da psicologia da religião. Em 1916 este pesquisador realizou um estudo clássico no qual descobriu que, àquela época, 58% de uma amostra de 1000 cientistas norte americanos, aleatoriamente selecionada, não acreditavam em Deus. No seu estudo, Leuba previu que à medida que o nível de educação científica aumentasse na população em geral, este número de não crentes tenderia a aumentar. O método utilizado por Leuba foi enviar um questionário, juntamente com um envelope selado, para a sua amostra aleatória de 1000 cientistas. As perguntas no questionário de Leuba se referiam a crença em Deus e na crença na imortalidade:


I - Perguntas sobre a crença em Deus no questionário de Leuba:
1. Eu acredito em um Deus que se comunica afetiva e intelectualmente com a humanidade; i.e. um Deus para o qual podemos rezar em espera de uma resposta. Por “ ” queremos significar mais do que o efeito subjetivo, psicológico da oração.
2. Eu não acredito em Deus como definido acima.
3. Eu não tenho nenhuma posição definida sobre esta questão

II - Perguntas sobre Imortalidade pessoal no questionário de Leuba. Isto é, a crença na continuidade da vida pessoal após a morte em outro mundo.
1) Eu acredito em:
a.Imortalidade pessoal para todos
b.Imortalidade condicional; ou seja, para aqueles que já alcançaram certo estado de desenvolvimento.
2) Eu não acredito nem na imortalidade incondicional nem na imortalidade condicional.
3) Eu não tenho nenhuma posição definida sobre esta questão.
4) Apesar de eu não acreditar em imortalidade pessoal, eu a desejo:
a.Intensamente.
b.Moderadamente.
c.Não desejo.

Após esta primeira pesquisa em 1916, dois autores (Larson, EJ e Witham, L) repetiram o trabalho de Leuba em 1996. Seus resultados não confirmaram a previsão de Leuba, mas foram talvez tão surpreendentes quanto(embora por razões opostas): A mesma proporção de cientistas que não acreditam em Deus foi encontrada em 1996: aproximadamente 55% dos que responderam ao questionário (entre não crentes e agnósticos). Isto foi um resultado inesperado, pois achava-se que o número tivesse aumentado entre 1916 e 1996 como resultado de uma maior influência das ciências naturais e do conhecimento científico em geral. Há limitações na comparação da pesquisa realizada em 1996 com aquela que Leuba realizou em 1916: uma das principais limitações é que a amostra de 1000 cientistas aleatoriamente selecionados representava, em 1916, 20% da população de cientistas nas áreas de biologia, física e matemática. Em 1996 a amostra representava apenas 3%. Além disso, a taxa de resposta ao questionário em 1996 foi menor (60%) do que em 1916 (70%). Ainda assim, o resultado foi, de certa forma, inesperado. Entretanto, quando em 1916 Leuba reanalisou os seus dados, considerando apenas os mais renomados cientistas de sua amostragem (ele utilizou como critério o livro “American Men of Science”, uma referência popular na época) ele encontrou uma taxa de não crentes de 70%. Em 1997, quando Larson e Witham consideraram também apenas os cientistas mais renomados da sua amostra do estudo de 1996 (aqueles que eram membros da National Academy of Sciences of the USA) os resultados mostraram que cerca de 79% não acreditavam em Deus e cerca de 76,3% não acreditavam em imortalidade (considerando os físicos) e taxas de 65,2 e 69% (respectivamente) foram encontradas para cientistas da área biológica. Se compararmos todos estes resultados entre as pesquisas realizadas em 1916, 1933 e 1998 (dados de 1996), a tendência que Leuba anteviu parece clara (clique na Tabela para visualizá-la em uma janela separada e em maior resolução):


Assim, voltando à pergunta do início do Post, é bem verdade que um número significativo de cientistas ainda acreditam em Deus, mas este número tem indubitavelmente diminuído seguindo uma tendência claramente visível, e sem dúvida, é uma proporção de crentes bem menor do que aquela prevalente entre a população em geral, o que mostra uma relação inversa entre conhecimento nas áreas das ciências naturais e a crença em um Deus pessoal.

Referências:

1)Larson, E. J. & Witham, L. Nature 386, 435-436 (1997)
2)Leuba, J. H. The Belief in God and Immortality: A Psychological, Anthropological and Statistical Study (Sherman, French & Co., Boston, 1916).
3)Leuba, J. H. Harper's Magazine 169, 291-300 (1934).
4)Larson, E. J. & Witham, L. Nature 386, 435-436 (1997).

9 comentários:

  1. Certamente que este universo de amostragem atual torna os resultados pouco úteis; como você parece ter bastate tempo livre porque não executa esta pesquisa à la lattes?

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  2. pareço ter bastante tempo livre? Me mostre aonde ele está se escondendo...Pensei nesta possibilidade. Se vc topar, podemos fazer...quem sabe conseguimos até uma notinha na nature..

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  3. Francis collins , que trabalhou no projeto genoma acredita em dus.
    A ciência não é atéia ou religiosa, as pessoas são.
    Se a religião tem influenciado a ciência, o que dizer do ateísmo atual?
    A busca pela explicação exata pela origem do universo e consequentemente da vida , tem criado teorias muito bizarras travestidas de ciência.

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  4. Francis Collins não é o único cientista de destaque em seu campo de atuação a ter uma religião e acreditar em Deus. Isto não diz muita coisa isoladamente. Como foi mostrado, a maioria dos cientistas não acredita na idéia de um Deus pessoal. A única influência inquestionável da religião sobre a ciência foi o obscurantismo e o atraso decorrentes da tentativa de barrar (em vão) o progresso científico. Galileu, Newton, Darwin e tantos outros teriam tido vidas bem mais fáceis se a religião não tivesse interferido tanto em suas vidas. Há quem ache que estaríamos muitos séculos a frente em termos científicos e tecnológicos não fosse o obscurantismo histórico da religião, principalmente, mas não exclusivamente a católica

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. "Tanto o cérebro quando o universo são holográficos". Exatamente, o que você quer dizer com isso??!

    "Ressonância mórfica"...isso parece retirado de um livro de Harry Potter

    Me parece que você tem dificuldades de entender o que um tomógrafo de emissão de pósitrons faz e como ele funciona...ainda mais dificuldade em entender que tipo de informação pode ser obtida de um PET scan, e qual informação NÃO pode ser obtida....

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  7. Não tenho nenhuma dificuldade, porque sou neurofisiologista e consultor de mapas mentais. Quanto ao termo "Ressonância mórfica " foi intoduzido po Ken Wilber e aplicado aos livros de Jacques Demaret, considerado o maior pesquisador da atualidade, junto de Daniel Chamel do Arizona. Outra coisa é publicar atigo no anonimato. Se você não é profissional da área Psi, jamais entenderá esse vocabulário. Desculpe, não quero swer ofensivo.

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  8. Ressonância mórfica é a interface entre os campos unificados( Teoria de Bosen-Einstein ), na teora psicanalítica Pierre Weil utizou o termo como trazer o complexo mitopoiético do inconsciente para o consciente, nas pulsões reprimidas, que durante a análise levaria ao "Action Out" ou a abreação do conflito.De resto o termo é aplicado a Apometria e aos níveis quânticos da consciência.

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  9. neurofisiologista e consultor de mapas mentais?? OK...pode me fornecer o link para o seu currículo Lattes?? Você parece algum personagem saído do livro "A Impostura intelectual em 10 lições". Alan Sokal já fez um excelente trabalho em lidar com gente como você e eu tenho a certeza que não farei melhor. Só uma cosinha: antes de dizer que publico meus artigos no anonimato, consulte meu Lattes..ele pode ser encontrado em: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=B115798. E por favor, não esqueça de me fornecer o link para o seu...

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