sexta-feira, 8 de junho de 2012

Ceticismo, Efeito Placebo e Homeopatia




Ninguém seria capaz de defender com muito sucesso o argumento de que nossas ações são sempre e exclusivamente racionais. Apesar da nossa vã pretensão de sermos seres racionais, não há como justificar em termos completamente lógicos aspectos centrais da natureza humana: a preferência por uma determinada cor, a escolha de um estilo musical, a predileção por um estilo artístico, a paixão arrebatadora. E é exatamente por reconhecer ser parte indissociável da natureza humana que a ciência se vale de alguns artifícios para tentar se precaver da influência das nossas emoções sobre os nossos julgamentos, tornando-os mais objetivos, e menos sujeitos às idiossincrasias das nossas paixões. Há espaço para a arte e há espaço para a ciência. Uma não se contrapõe à outra. Mas são domínios diferentes.

A efetividade de um tratamento médico deve poder ser avaliada independentemente das paixões do médico que o administra. Ou seja, o fato do médico acreditar ou não no tratamento administrado, não tem, teoricamente, nenhum efeito direto sobre a sua efetividade (exceto talvez se a sua expectativa influenciar a expectativa do paciente sendo tratado). Isto não significa dizer entretanto que as expectativas do paciente não contam. Aqui, há muita evidência apoiando a ideia de que acreditar na efetividade do tratamento é fundamental para que o paciente se beneficie dele. Esta expectativa de melhora ou de cura está na base de um dos efeitos mais fascinantes da farmacoterapia moderna, chamado de “efeito placebo”.

O efeito placebo está associado à expectativa depositada pelo paciente na efetividade do seu tratamento. Por exemplo, a simples administração de comprimidos de lactose (uma substância farmacologicamente inerte) a um paciente com depressão, pode minimizar a intensidade de seus sintomas, desde que o médico não fruste a expectativa de cura do paciente revelando ao mesmo a real natureza do medicamento embuste. Interessantemente, comprimidos placebo de “200 mg” são mais efetivos que comprimidos placebo de “100 mg” (mesmo se tratando de formas farmacêuticas preparadas a partir de insumos inertes), e um placebo com gosto amargo mais efetivo que um placebo de sabor doce.
O efeito placebo é real e já foi demonstrado em inúmeras situações. Para se ter uma ideia do seu poder, é preciso saber que ele não se restringe a patologias com sinais e sintomas de avaliação mais difícil, como é o caso da depressão e outras doenças psiquiátricas, cuja melhora ou cura está em sua maioria apoiada nos resultados de avaliações clínicas fundamentadas na aplicação de questionários estruturados e não na medida de algum parâmetro fisiológico ou bioquímico quantitativo.

Um exemplo que ilustra muito bem o poder do efeito placebo foi um experimento realizado em um grupo de cardiopatas com indicação de uso de marcapasso (Linde C., et al., 1999). Estes indivíduos foram aleatoriamente divididos em dois grupos após a cirurgia para implantação do marcapasso. O primeiro grupo teve o marcapasso ligado no modo ativo (o modo convencional). O segundo grupo teve o marcapasso ligado no modo passivo, que é um modo ineficiente do marcapasso funcionar. Os voluntários obviamente não sabiam (nem tinham como descobrir) em que grupo estavam. Os pacientes dos dois grupos foram então acompanhados através de avaliação eletrocardiográfica e ecocardiográfica. Os resultados mostraram de forma clara e surpreendente que mesmo para o grupo de pacientes no qual os marcapassos estavam funcionalmente desligados (modo passivo) ocorreram alterações no eletrocardiograma e ecocardiograma estatisticamente significativas e sugestivas de melhora.

Por reconhecer a importância do efeito placebo sobre a resposta de um indivíduo ao tratamento farmacológico e a outras intervenções, os ensaios clínicos de novos medicamentos são geralmente realizados para determinar se o novo medicamento ou a nova intervenção são, pelo menos, mais efetivos do que o efeito placebo em minimizar os sinais e sintomas que se pretende tratar. Se uma indústria quer comercializar (e lucrar com isso) um medicamento, alegando que este possui eficácia, ela deve ser capaz de provar que ele é pelo menos melhor do que pílulas de açúcar inertes, ou seja, para além do nível de melhora promovido pelo placebo. Para fazer isto de forma convincente e isenta, os ensaios clínicos de novos medicamentos devem ser realizados comparando-se em voluntários o efeito do tratamento com o efeito de um placebo (pílulas, comprimidos ou outra forma farmacêutica adequada, idêntica sempre que possível em aspecto, cor, odor e sabor ao medicamento teste, mas formulada com insumos farmacologicamente inertes como a lactose). Para eliminar a possibilidade de viés por parte dos profissionais responsáveis pela execução do ensaio clínicos e de forma a nivelar a expectativa entre todos os voluntários da pesquisa, os ensaios clínicos são geralmente realizados de forma duplamente cega: nem os voluntários e nem os investigadores do estudo sabem quais pacientes estão recebendo o tratamento e quais recebem placebo. Esta informação (quem de fato recebeu placebo ou tratamento) fica confiada a uma pessoa que não participa do ensaio clínicos até o fim do mesmo, quando então se revela quais os pacientes estavam no grupo que recebeu o placebo e quais receberam o tratamento, para finalmente se avaliar se a efetividade do tratamento superou a do placebo.

Pílulas inertes de açúcar são também conhecidas por outro nome, certamente mais familiar: Homeopatia. O uso disseminado de uma doutrina médica do século XVII, sem nenhuma base racional, em contraposição a todo conhecimento científico acumulado nas áreas das ciências da natureza, e baseada na administração de placebo é uma das provas mais contundentes de que nossas ações não são motivadas apenas pela razão. Talvez não seja tão surpreendente que pessoas leigas se tratem com homeopatia, afinal a maioria delas nem desconfia que estão sendo tratadas com um medicamento inerte e além disso, todos que já foram atendidos por homeopatas descrevem o cuidado e o nível de atenção a detalhes com que suas queixas são recebidas pelo médico homeopata, que se preocupa com detalhes da vida do paciente que são simplesmente ignorados por médicos alopatas. E é claro que este fato ajuda a potencializar as expectativas do paciente sobre o tratamento. Aliás, atenção e a percepção de acolhimento também funciona como um potente placebo entre alopatas é claro, e aqui estes teriam muito a aprender com os médicos homeopatas. Mas entre os mais aguerridos defensores da homeopatia estão não apenas leigos, mas médicos, farmacêuticos, enfim, muitos profissionais da área da saúde, que defendem a homeopatia como uma forma de tratamento útil e eficaz. Há escolas de homeopatia e a Associação Médica Brasileira reconhece a homeopatia como especialidade médica. O Ministério da Saúde a considera como uma prática complementar válida e recursos públicos são utilizados na promoção da homeopatia. Mas como que um médico que estudou farmacologia, que sabe como um medicamento atuando em receptores farmacológicos tem um efeito dependente de sua dose, que teve aulas práticas demonstrando este efeito; como um tal indivíduo pode acreditar que quanto mais diluído um medicamento homeopático (diluições tão colossais a ponto de não se ter mais uma única molécula da substância original) mais potente ele será? Se um medicamento homeopático funcionasse, seria preciso reescrever toda a química, física, fisiologia e farmacologia de uma tacada só. Na época de Hanneman (o pai da Homeopatia) não se conhecia absolutamente nada sobre biologia molecular, receptores farmacológicos, agonistas, antagonistas, bioquímica, etc. Sem falar que a própria Medicina vivia na idade das trevas. Os melhores tratamentos consistiam de uma das seguintes opções: sangrias, sanguessugas, misturas de metais pesados tóxicos, laxantes e purgativos. Um tratamento que não matasse o paciente era uma imensa vantagem nesta época. E a Homeopatia com suas ultra diluições fazia exatamente isso.

O que me traz a questão abordada no início deste post. Porquê acreditamos em algo que se contrapõe tão brutalmente à razão e aos fatos? Tenho muitos colegas de Universidade que acreditam que a homeopatia é uma forma de tratamento válida. E que este meu ceticismo é de uma arrogância imensa. Para estes eu gostaria de reafirmar que a verdadeira arrogância é jogar no lixo todo o cabedal de conhecimento acumulado pela humanidade na área das ciências da natureza: física, química, bioquímica, biologia molecular, fisiologia, farmacologia, para acomodar e defender uma prática para a qual não há nenhuma evidência convincente. Rejeitar uma ideia por falta de evidências suficientes não é arrogância. É apenas coerência.

3 comentários:

  1. No site http://www.vocesabia.net/saude/a-homeopatia-funciona/ há um post patético sobre o assunto, só para divertir, veja o que dizem dois alucinados da homeopatia:
    "A homeopatia é diferente de qualquer outro tipo de medicina. Um único medicamento homeopático trata todos os sintomas do paciente e não apenas a sua queixa principal. O efeito de uma única dose pode durar meses ou mesmo anos. Os medicamentos não têm data de validade e podem durar por toda a vida. Eles são seguros, tanto para a gestante quanto para um recém-nascido. No entanto, são suficientemente poderosos para deter uma hemorragia e até tirar pacientes do estado de coma em questão de minutos." E por aí vai.
    Puxa, para quê ciência? A fé na homeopatia cura montanhas de antas... Eu realmente gostaria de ver um crente na homeopatia desejar ser operado com uma anestesia homeopática; outro com aids desejar ser tratado com um (Hanneman teria remédio prá isso?) antiviral homeopático; e se não fosse crime até quebrar um osso de um homeopateta para vê-lo tomar suas gotinhas e balinhas; aliás, isso seria um ótimo roteiro pros filmes de terror estilo JOGOS MORTAIS... o cara quebra a perna do homeopata e deixa ele com todos os remédios da farmácia homeopática prá se aliviar.BRRRRRR

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  2. Cara...vc me fez rir muito...Mas realmente o argumento de que a homeopatia está imune à investigação científica é muito utilizado. Se os homeopatas admitissem isso de forma mais clara, nos poupariam muito trabalho: seria a admissão de que ñão passa de pseudociência.

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  3. Acho que o medo de duvidar de um poder invisível e punitivo passa pela cabeça de médicos e enfermeiros também. Não precisa ser um deus específico. A ideia de que podem haver forças desconhecidas atuando sobre a realidade é sedutora, é instigante, e nos coloca numa situação de vulnerabilidade (estarei sendo visto? estarei duvidando de algo poderoso?). O fato do paciente que procura a homeopatia estar disposto a acreditar nela, e muitas vezes funcionar (como placebo) deve ser bastante interessante para médicos e farmacêuticos, que podem até mesmo jogar a culpa no stress do paciente se ele não melhorar.

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